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Full text of "Poetica de Horatio, e o Ensaio sobre a critica de Alexandre Pope : em portuguez"

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:  VELUT.J         K./ÇVO 
1  ARBOR  : 

Presented  to  the 

LIBRARYo/i/ze 

UNIVERSITY  OF  TORONTO 

by 

Professor 

Ralph  G.  Stanton 


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POÉTICA    DE    HORATIO, 


E    O 


ENSAIO    SOBRE  Av-CRITICA, 


DE 


JLEXJNDRE  POPE. 


EM  PORTUGUEZ 


Dedicado  a  preciosa  Memoiia  d' d  Rey,  D.  Joaõ  IV, 


Por  lmma  Portugueza. 


Jion&ttg : 


Xa  officina  de  T.  Hurpcr,  Jini.  Crane  Court,   FUd  vfr 

E  NAS  LOGEAS  DE  A.  B.  DULAC,  .X  CO.  SOIIO  SQUARE;  BOOSEY, 
BROAD  STREKT  ROYAL  EXCIUNGE;  MANNLK»  A.  M1LLLR, 
EDINBOROLGn  ;    KEENF,    DUBLIN. 


1812. 


Digitized  by  the  Internet  Archive 

in  2010  with  funding  from 

University  of  Toronto 


http://www.archive.org/details/poeticadehoratioOOhora 


DEDICATÓRIA 

1  Memoria  preciosa  dei  Jl ey.  D.  João,  IV. 


SONETO.' 


Sombra  regia!  se  a  minha  iyra  ruda 
Quebra  da  morte  o  Empedernido  muro 
Lá  te  leve  meu  cauto,  incenço  puro 
Qual  arde  na  minha  alma,  que  nao  muda. 

Em  vaò  feró%  maldade  ardis  es  uda; 
Atras  desse  pendão  nobre,  seguro 
Que  os  quarenta  guiou,  a  vós  procuro 
Pois  naô  há  cá  no  mundo  quem  me  acuda. 

Basta-me  amim,  que  dure  o  nome  vosso, 
Que  o  vosso  Xetto,  e  gente  artignalada 
Os  loiros  murche  ao  Gálio  e  seu  colosso. 

Cò  a  maõ  afeita  ao  fiizo,  nao  á  espada 
A  pátria  sirvo  n>\n<>  sei  ou  | 
Félix!  se  aos  mortos,  o  que  faasQj  agrada. 


Carminibus  quaero  roiserarum  oblivia  rerura. 


ARTE  POÉTICA 


DHORATIO, 


OU 


EPISTOLA    A    OS    PISOES. 


V> 


Q.  HORATII  FLACCI 

DE  ARTE.  POÉTICA 


LÍBER. 


A  D  PISOS7  ES. 

Humano  capiti  cervicem  pictor  equinam 
Jungere  si  velit,  et  varias  inducere  plumas 
Undique  collatis  membris,  ut  turpiter  alruin. 
Desiuat  ia  piscem  mulier  formosa  supersiè  : 
Spectatum  admissi  risum  teneatis,  amici? 
Crtdite,  Pisones,  isti  tabulae  fore  librum 
Persimilem,  cujus,  velut  segri  somnia,  vanae 
Fingentur  species:  ut  nec  pes;  nec  caput  uui 


ARTE  POÉTICA 


DTIORATÍO. 


EPISTOLA  A  OS  PISOES. 

Se  hum  colo  de  cavallo,  a  o  rostro  humano 

Juntar  qiuzesse  alguém,  e  cravejasse 

Membros  unidos  de  animais  diversos, 

Com  varias  plumas,  terminando  as  formas 

De  huma  bella  molher,  cauda  de  peixe;  f 

Quem  naõ  riria?     Amigos  indulgentes 

Desculpar  naõ  podiaõ,  tal  delírio. 

Crede  me  pois,  Pisoes,  ií>to  lie  retrato 

De  hum  livro,  que  sem  plano  se  fabrica, 

E  qual  sonho  cTenfermo  espécies  cria,  10 


Reddatur  forma?.     Pictoribus  atque  poetis 

Quidlibet  audendi  semper  fuit  aequa  potestas.  10 

» 

Scimus,  et  hanc  veniam  petimusq;  damusq;  vicissim: 
Sed  non,  ut  placidis  coeant  iuimitia,  non  ut 
Serpentes  avibus  geminentur,  tigribus  agni. 

Inceptis  gravibus  plerumque  et  magna  professis, 
Pnrpureus  late  qui  splendeat  unus  et  alter  15 

Assuitur  pannus:  cúm  lueus  et  ara  Dianae, 
Et  properantis  aquse  per  amcenos  ambitus  agros, 
Aut  flumen  Rhenum,  aut  pluvius  describitur  arcus. 
Sed  nunc  non  erat  his  locus :  et  fortasse  cupressurn 
Seis  simulare;  quid  hoc,  si  fractis  enatat  exspes     20 


Que  nao  tem  connexao,  pés  ou  cabesça, 
Que  convenha  á  figura  projectada. 

Poetas  e  Pintores,  tem  licença, 
Ora  lha  damos,  ora  lha  pedimos, 
De  íinjir,  o  que  mais  agradar  possa ; 
Excepto  se  contrários  unir  querem,  15 

E  que  nasçao  as  aves,  das  serpentes, 
Que  os  tygres  gerem  as  ovelhas  mancas. 
Essas  obras  pomposas,  que  prometem 
Coizas  grandes,  às  vezes,  sao  retalhos 
De  purpura,  e  brocado,  que  alinhava  20 

Com  arte  o  dono  ;  como  exemplo  achamos, 
A  descripçaõ  das  aras  de  Diana, 
No  Sacro  bosque ;  o  rápido  remanço, 
Que  serpea  nos  campos  sombreados ; 
O  largo  Rheno;  e  a  luminuza  estrada  25 

Onde  entre  o  sol  e  a  chuva,  íris  anda. 
Isto  porem  naò  he  de  que  se  trata. 

Tal  pinta  com  primor  raro,  hum  cypreste, 
Mas  isso  de  que  serve  ?     Se  lhe  pagão, 


6 

Navibus,  aere  dato  qui  pingitur?  amphora  coepit 

Institui:  currente  rota,  cur  uiceus  exit? 

i 
Denique  sit,  quid  vis,  simplex  duntaxat  et  umim. 

Máxima  pars  vatum  (pater,  et  juvenes  patre  digni) 

Decipimur  specie  recti :  brevis  esse  laboro,  25 

Obscurus  tio:  sectantem  laevia,  nervi 

Deficiunt  animique :  professus  grandia,  turget : 

Serpit  humi  tutus  nimium  timidusque  procellae. 

Qui  variare  cupit  rem  prodigialiter  unam, 

Delphinum  sylvis  appingit,  fluctibus  aprum.  30 

In  vitium  ducit  culpas  fuga,  si  caret  arte. 

ÍEmilium  circa  ludum  faber  imus  et  ungues 

Exprimet  et  molles  imitabitur  ztre  capillos, 


7 

Para  pintar  ao  vivo  hum  uaufragante,  30 

Entre  Naus  destroçadas,  bravos  mares  ? .  . . 
Tal  quer  formei  bum  vazo.  .  .  o  torno  gira: 

Por  que  rezaõ  lhe  sai  hum  jarro  tosco? 

# 

He  précizo  unidade,  em  qualquer  Obra; 
Principio,  meyo,  fim,  methodo,  e  graça. 

Sabei  pois  digno  Pai,  e  riíios  dignos, 
Que  os  mais  dos  Vates,  d^llusões  vivemos, 
E  aparências  do  bem,  nos  satisfazem : 
Se  trabalho  em  ser  breve,  escuro  fico 
Se  busco  ser  suave,  a  força,  o  uêrvo,  40 

Na  molJeza  e  brandura  se  dissipaõ. 
O  tom  sublime,  em  túrgido  se  troca, 
E  se  nimia  cautélja  as  phrases  guia, 
Vai  terra  a  terra,  abaixasse  o  discurso: 
E  mil  vezes  aquelle,  que  procura  * 

\  ariar  seus  assumptos,  com  portento;», 
Hum  golfinho  me  pinta  nas  florestas, 
Hum  javali  nus  ondas;  e  trop;  ça 
Quando  foge  de  hum  mal,  n'outro  mais  3i  i 


8 

Infelix  operis  summâ,  qnia  ponere  totum 
Nesciet.  Hunc  ego  me,  si  quid  componere  curem,  35 
Non  magis  esse  velini,  quàm  pravo  vivere  naso, 
Spectandum  nigris  oculis,  nigroque  capillo. 

Sumite  materiam  vestris,  qui  scribitis,  ajquani 
Viribus,  et  versate  diu,  quid  ferre  recusent, 
Quid  valeaut  humeri :  cui  lecta  potenter  erit  res,   40 
Nec  facúndia  deseret  lranc,  nec  lucidus  ordo. 

Ordinis  haec  virtus  erit,  et  Vénus  (aut  ego  fallor) 
Ut  jam  nunc  dicat,  jam  minc  debentia  dici 
Pleraque  differat,  et  praesens  in  tempus  omittat: 
Hoc  amet,  hoc  spertiat,  promissi  carminis  auctor.  45 

In  verbis  etiam  tenuis  cautusque  serendis : 


Se  as  regras  necessárias  naõ  consulta.  50 

Perto  do  circo  Emilio,  ignaro  artista 
N'huma  estatua  fiel  em  bronze  esculpta, 
Perfeitamente  as  unhas,  os  cabelios; 
Mas  no  dezenho  desgraçado,  ignora 
Como  deve  juntar  de  hum  todo  as  partes:  5$ 

A  compor  deste  modo  antes  quizera 
Ter  disforme  o  naris,  e  os  olhos  vesgos. 

Pezai  bem  a  matéria,  que  tratareis. 
Quando  escreveis,  medi  as  vossas  forças. 
Ensaiay,  com  que  podem  vossos  hombros, 
Se  o  assumpto  vos  for  proporcionado, 
Nunca  vos  faltará  phraze  eloquente, 
Ordem  lúcida,  e  graças  no  discurso. 

O  mérito  das  Obras,  a  bellezfl 
Consiste  em  pôr  no  lugar  próprio  as  coizas, 
Dizer  antes,  o  que  antes  dizer  deve, 
Transpor  aquillo,  que  mais  tarde  agrada. 
Do  que  convém,  uzar;  e  omitir  quanto 
■  li  graça  01  inutilmente  occorre. 


10 

Dixeris  egregiè,  notum  si  callida  verbuin 

Reddiderit  junctura  novum.     Si  forte  necesse  est 

» 

Indiciis  monstrare  recentibus  abdita  rerum, 
Fingere  cinctutis  iion  exaudita  Cethegis  50 

Continget,  dabiturque  licentia  sumpta  prudenter. 
Et  nova  factaque  nuper  habebunt  verba  íidem,  si 
Graeco  fonte  cadant,  parcè  detorta.     Quid  autem 
Ceecilio,  Plautoque  dabit  Romanus,  ademptum 
Virgílio,  Varioque?  ego  cur  acquirere  pauca  55 

Si  possum,  invideor;  cum  lingua  Catonis  et  Enn! 
Sermonem  patriurn  ditaverit,  et  nova  rerum 
Nomina  protulerit  ?  licuit,  semperque  licebir, 
Signatum  prsesente  nota  procudere  nomen. 


11 


Parco  em  palavras,  delicado,  e  cauto  70 

Hade  sempre  agradar,  o  author  astuto 
Que  os  termos  velhos,  remoçar  com  arte ; 
E  quando  carecer  de  signais  novos 
Para  novas  idéas;  fôr  achallos 

Em  ihesouros  ignotos  aos  Cethegos,  7-^ 

E  asriscár  sem  temor  hum  termo  affoito; 
Se  a  prudência  o  condus,  o  povo  aplaude. 
E  as  palavras  de  fabria  recente, 
Teraõ  valor;  e  mais  se  derivarem 
Com  pouca  corrupção,  da  Grécia,  ou  Latium.        80 

Nao  penseis  que  os  Romanos  coucedessem 
A  Cecilius,  a  Plauto,  o  que  negavao 
A  Varrius  a  Virgílio,  e  que  amim  mesmo 
Prohibissem  as  honras,  que  alcansaraõ 
Ennio,  Cataò  enriquecendo  a  liugua  65 

De  termos  expressivos,  picturescos. 

Sempre  licito  foy,  e  será  sempre 
Enxertar  DO  discurso,  huma  palavra 
Comtanto,  que  o  costume  a  naò  reprove 


12 

Ut  sylvae  foliis  pronos  mutantur  in  aniios,  60 

Prima  caduut:  ita  verborum  vetus  interit  aetas, 

» 
Et  juvenum  ritu  florent  modo  nata  vigentque. 

Debemur  morti  nos,  nostraque  :  sive  receptus 

Terra  Neptunus,  classes  Aquilonibus  arcet, 
Regis  opus  :  sterilisve  diu  palus,  aptaque  remis,      65 
Vicinas  urbes  alit,  et  grave  sentit  aratium: 
Seu  cursum  mutavit  iniquum  frugibus  amnis, 
Doctus  iter  melius.     Mortalia  facta  peribunt: 
Nedum  sermonum  stet  honos,  et  gratia  vivax. 
Multa  renascentur,  qnae  jam  cecidêre;  cadentque  70 
Quae  nunc  sunt  in  honore  vocabula,  si  volet  usus, 
Quem  penes  arbitrium  est,  et  jus,  et  norma  loquendi. 


13 

As  florestas  no  anuo  as  folhas  muclaò,  90 

As  primeiras,  primeiro  caem  por  terra, 

Tais  as  palavras  obsoletas  morrem, 

E  novas  com  vigor  juvenil  brilhao. 

A'  morte  nos,  e  tudo  nosso  paga 

Tributo  inevitável,  esse  Lago, 

Obra  digna  de  hum  Rey,  que  contra  os  ventos 

Abriga  de  Neptuno  as  largas  ondas, 

E  defende  as  esquadras  nas  procellas; 

Essa  Lagoa  estéril,  que  primeiro 

Se  navegava,  e  própria  aos  remos  era  ; 

Onde  hoje  o  arado  sublevando  as  leivas,  1<)0 

Celeiro  faz  das  próximas  cidades ; 

L-se  Rio,  que  as  messes  devastava 

E  que  hoje  dócil,  encanado  corre; 

Dos  mortais  essas  Obras  todas  morrem. 

Mal  poderão  os  termos  durar  sempre,  105 

I ).    viveza  immortal,  e  graça  ornados: 

M  uitos  renascem,  que  esquecidos  ei  aò, 

E  cahiraò  aquelles  que  hoje  honramos, 


14 

Res  gestae  regumque  ducumque,  et  tristia  bella, 

Quo  scribi  poasent  numero,  monstravit  Homerus. 

» 

Versibus  impariter  junctis  querimouia  primiim,  75 
Post  etiam  inclusa  est  voti  seutentia  compôs. 
Quis  tamen  exiguos  Elegos  emiserit  auctor, 
Grammatici  ceitaut,  et  adliúc  sub  judice  lis  est. 

Archilochum  próprio  rabies  armavit  lambo: 
Hunc  socci  cepêre  pedem,  grandesque  cothumi,     80 
Alteruis  aptum  sermonibus,  et  populares 
Vinceutem  strepitus,  et  natum  rebus  agendis. 

?»lusa  dedit  fidibus  Divos,  puerosque  Deorum, 
Et  pugilem  victorem,  et  equum  certamiue  primum, 
Et  juvenum  curas,  et  libera  vina  referre.  85 


1.5 

Se  o  costume  assim  quer,  pois  o  costume 

He  Rey,  norma,  e  ley  summa  da  Linguagem.       110 

Homero  nos  mostrou  que  versos  devem 
Cantar  Reis,  capitães,  e  tristes  guerras, 

Distico  desigual  cantou  primeiro 
A  queixoza  elegia;  e  deste  metro, 
A  o  depois  o  prazer  tao  bem  fez  uso.  1 1 5 

Porem  discutem  sábios,  qual  foi  delles 
Do  elegiaco  pé  author;  e  fica 
Inda  agora  a  questão  por  decedirse. 

Archiloco  se  armou  de  próprio  jambo 
Que  a  fúria  da  vingança  lhe  inspirava,  1 20 

E  como  o  jambo  he  vencedor  da  bulba, 
Do  popular  estrépito  na  scena, 
O  jambico  adoptava  o  sóceo  humilde, 
E  usou  delle  o  cothurno  magestoso. 

A  muza  confiou  das  cordas  áureas 
Que  celebrassem  os  heroes,  eos  Deu- 
Os  que  na  pugna,  e  na  carreira  vencem; 
O  cavallo  veloz,  que  atinge  a  mé 


lo- 

Descriptas  servare  vices,  operumque  colores, 
Cur,  ego,  si  nequeo  ignoroque,  Poeta  salutor  ? 
Cur  nescire,  pudens  pravè,  quàm  discere  maio? 
Versibus  exponi  Tragicis  res  Cómica  non  vult: 
Indignatur  item  privatisque  ac  propè  socco  90 

Dignis  carminibus  narrari  ccena  Thyestie. 
Singula  quaeque  locum  teueant  sortita  decenter. 
Interdum  tamen  et  vocem  Comcedia  tollit, 
Iratusque  Chremes  túmido  delitigat  ore : 
Et  Tragicus  plerumque  dolet  sermone  pedestri.      95 
Telephus  et  Peleus,  cúm  pauper  et  êxul  uterque 
Projicit  ampullas  et  sesquipedalia  verba, 
Si  curat  cor  spectantis  tetigisse  querela. 


17 

Ode,  que  a  os  astros  o  athleta  exalta.  130 

Tao  bem  descanta  es  juvenis  brinquedos, 

Os  risos,  e  de  Bácco  as  vineas  festas. 

Se  naõ  sei  conservar  do  objecto  as  cores, 

S'ignoro,  quanto  ás  coizas  convir  possa, 

Como  me  arrogo  o  nome  de  Poeta?  135 

E  com  torpe  vergonha  menos  temo 

Ignorar,  que  aprender  a  fazer  versos. 

Naõ  convém  à  comedia  altivo  estilo, 

Nem  o  banquete  horrivel,  de  Thiestes 

Narrar  se  pode,  com  burlescos  versos,  ]  40 

Que  o  borzeguim  desculpa,  e  quer  Thalia. 

Tudo  em  próprio  lugar,  convém  qu 'esteja. 

Varias  vezes  a  voz,  alça  a  comedia, 
Chremes  irado,  o  filho  reprehende; 

Com  termos  novos,  eloquentes  lábios. 

E  na  Tragedia  a  dor  com  simples  voses  14  õ 

Humilde  geme  :  desterrados,  pobres 

Telepho  nem  Peleu,  fallando,  empreguem 

Palavras,  crespas,  túrgidas  sentenças, 

D 


18 

Non  satis  est  pulchra  esse  Poemata:  dulcia  sunto, 
Et  quocunque  volent,  arrimum  auditoris  agunto.    100 
Ut  ridentibus  arrident,  ita  flentibus  adflent 
Humani  vultus.     Si  vis  me  flere,  dolendum  est 
Primam  ipsi  tibi :  tunc  tua  me  infortimia  lcedent, 
Telephe,  vel  Peleu :  malè  si  mandata  loquêris, 
Aut  dormitabo,  aut  ridebo.     Tristia  moestum        105 
Vultum  verba  decent:  iratum,  plena  minarum: 
Lutlentem,  lasciva:  severum,  seria  dictu. 
Format  enim  natura  prius  nos  intús  ad  onmeni 
Foi  tunarum  habitum  :  iuvat,  aut  impellit  ad  iram  ; 


19 

Para  mover  os  corações,  co'as  queixas 

Enternecer  o  auditório  attento.  lj0 

Naõ  basta,  que  hum  poema  seja  bello; 

He  precizo,  que  toque,  que  disponha, 

Das  almas  dos  ouvintes  a  seu  modo: 

Que  quem  ri,  fassa  rir ;  chorar,  quem  chora. 

Chorai  pois  se  quereis,  pranto  em  meus  olhos;     135 

Entaõ  peleu,  entaõ  Telepho  as  magoas 

Que  sofreis,  sofrerei :  mas  se  narrando 

Mal,  o  vosso  papel,  causais  fastio 

Rirei,  ou  dormirei,  conforme  o  conto. 

Naõ  desmintaõ  palavras  os  assumptos;  IfiQ 

A  o  gesto  triste,  tristes  vozes  quadraò, 
A  o  gesto  irado,  termos  d'ameaço, 
Para  alegria,  as  expreçòes  alegres; 
As  serias,  á  severa  austeridade. 

Natureza  nos  deu  no  interno  senso,  165 

O  que  pertence  a  cada  sentimento. 
A'  cólera  nos  move ;  e  nos  abatte 
F.  aperta  o  coração  peln  tristeza. 


20 

Aut  ad  humum  moerore  gravi  deducit  et  angit:     1 10 

Post  effert  animi  motus  interprete  linguâ. 

i 

Si  dicentis  erimt  fortunis  absona  dicta, 
Romani  tollent  equites  peditesque  cachinnum. 
Intererit  multum,  Davusne  loquatur,  an  heros: 
Maturusne  senex:  an  adhuc  florente  juventâ  115 

Fervidus :  an  matrona  potens,  an  s>edula  nutrix : 
Mercatorne  vagus,  cul torne  virentis  agelli: 
Colchus,  an  Assyrius:  Thebis  nutritus,  an  Argis. 
Ant  famam  sequere,  aut  sibi  convenientia  finge 

Scriptor:  honoratum  si  forte  reponis  Achillem:   120 

# 


21 


Como  intf  rpetre  em  fim,  a  lingua  emprega 
Para  expor  movimentos  taõ  diversos.  170 

Porem  se  exprimis  mal,  vossos  assumptos 
Nobres,  e  plebe  de  vos  zomba  em  Roma. 

Fala  diversamente,  o  escravo  Davo 
Do  heróico  Agamemnon;  as  palavras 
Do  canuto  ancião,  saò  differentes  175 

Das  q  ic  profere  o  florido  mancebo, 
N o  fervor  juvenil  com  que  discorre. 
NaÔ  se  exprime  igualmente  huma  creada 
Como  se  exprime  a  dama  culta,  e  nobre. 

Hum  mercador,  que  os  mares  atravessa,  ISO 

E  frequenta  as  nações,  destinga  a  gente, 
Do  camponez,  que  os  gados  apascenta, 
E  vive  no  curral;  saiba  quem  ouve 
Se  quem  fala,  he  de  Colchos,  ou  d' Assíria, 
Se  he  de  Ihebas,  ou  foy  citado  em  Argos.  185 

Pintai  segundo  a  fama,  ou  de  maneiro, 
Que  o  fingido,  provável  nos  pareça. 
Se  Achiles  nos  mostrais  desagravado 


£2 

Impiger,  iracundus,  inexorabilis,  acer, 

Jura  neget  sibi  nata,  nihil  non  arroget  armis. 

* 

Sit  Medea  ferox,  invictaque,  flebilis  Ino, 

Períidus  Ixion,  Io  vaga,  tristis  Orestes. 

Si  quid  inexpertum  scense  committis  et  audes        125 

Personam  formare  novam ;  servetur  ad  imum 

Qualis  ab  incepto  processerit,  et  sibi  constet. 

Difficile  est  própria  comirmnia  dicere:  tuque 

Kectiiis  Iliacum  carmen  dtducis  in  actus, 

Quam  si  proferres  ignota  indictaque  primus.  130 

Publica  materies  privati  júris  erit,  si 

Nec  circa  vilem  patulumque  moraberis  orbem. 

Nec  verbum  verbo  curabis  reddere,  fidus 

Tnterpres  :  nec  desilies  imitator  in  arctum, 


23 

Seja  altivo,  colérico,  inflexível, 

Ardente,  e  que  nenhuma  ley  conheça,  1QO 

Nenhum  outro  direito,  que  o  da  espada. 

Se  Medea  feros,  Seja  indomável; 

Inno  queixoza;  fraudulento  Ixion  ; 

Io  assustada  e  vagabunda  gema; 

Oréstes  melancólico  pragueje.  195 

Mas  se  hum  caracter  novo,  em  scena  pondes, 

Em  sustentalo,  sem  desmintir  nunca 

Cuidai  desde  o  principio  até  seu  termo. 

t 
He  difficil  tratar  coizas  vulgares, 

Com  certa  elevação,  que  pasmo  inspire,  200 

Melhor  será,  tirar  d'Homero  assump:<>  . 

E  approprialos  co'a  dicção,  e  o  gosto ; 

Qualquer,  tratado  bem,  vos  dará  gloria, 

Vosso  rica,  se  novos  trajes  veste, 

Se  nova  essência,  cm  vossos  versos  ganha. 

E  se  do  engenho,  desprendendo  as  az:e>, 

Desdenhais  do  modelo  a  servil  norma 

Sem  repetir  jjalavia,  por  palavra, 


24 

Unde  pedem  proferre  pudor  vetet,  aut  operis  lex:  135 
Nec  sic  incipies,  ut  scriptor  cyclicus  olim: 
Fortunam  Priami  cantabo,  et  nobile  bellum. 
Quid  dignum  tanto  feret  hic  promissor  hiatu? 
Parturiunt  montes,  nascetur  ridiculus  mus. 
Quanto  rectius  hic,  qui  ml  molitur  ineptè:  140 

Dic  mihi  Musa  virum,  captse  post  têmpora  Trojai, 
Qui  mores  hominum  multorum  vidit,  et  urbes. 
Non  fumum  ex  fulgore,  sr.d  ex  fumo  dare  lucem 
Cogitat,  ut  speciosa  dehinc  miracula  promat; 
Antipbaten,  Scyllamqueet  cum  Cyclope  Charybdim. 
Nec  reditum  Diomedis  ab  interitu  Maleagri,        146 


25 

Expondo  a  muza,  a  passos  escabrosos 

De  que  só  com  desdoiro,  escapar  pode.  2 1 0 

Qual  cyclico  Escriptor,  antigamente, 

Naõ  comeceis  assim — -Eu  de  Priamo 

"  Cantarei  a  fortuna,  e  nobre  guerra." 

Que  nos  dará,  quem  tanto  nos  promette?  .  .  . 

Hum  rediculo  rato,  pare  o  monte.  2 1 5 

Quanto  me  agrada  mais  esse  poeta, 

Que  sem  esforço  aíFoito  principia. 

"  Dizeme  oh  Musa  os  feitos  desse  heroe 

"  Que  tantas  gentes  vio,  tantas  cidades, 

"  Depois  que  foi  tomada  Tróia,  dize."  §-20 

Em  fumo  naõ  converte  lum  grande  lume 

Antes,  do  fumo,  fas  nascer  as  luzes. 

Depois,  portentos  nascem  de  seus  versos; 

Anthiphates  Caribdes,  e  Scillas 

E  o  corpolento  e  fero  Poliphemo.  S25 

Naõ  vai  buscar  de  Meleagre  a  morte 

Se  quer  trazer  Diomedes  de  volta; 

Nem  dos  ovos  de  Leda  tira  a  guerra 

E 


'26 

Xec  gemino  bellum  Tiojanum  orditur  ab  ovo. 

Scmper  ad  eventum  festinat:  et  in  medias  res 

Non  secíis  ac  notas,  auditorem  rapit;  et  qu* 

Desperat  tractatà  nitescere  posse  relinquit. 

Atque  ita  mentitur,  sic  veris  falsa  remiscer,  150 

Primo  ne  médium,  medio  ne  discrepet  imum. 

Tu  quid  ego,  et  populus  mecum  desideret,  audi. 

Si  plausoris  eges  aulaea  manentis,  et  usque 

Sessuri,  donec  cantor,  Vos  plaudite,  dicat ;  155 

iEtatis  cujusque  notandi  sunt  tibi  mores, 

Mobilitusque  decor  naturis  dandus  et  annis. 

Reddeie  qui  vcces  jum  scit  puer,  et  pede  certo 
Signat  humum,  gesiit  paiibus  coliudeie,  et  iram 


27 

Com  que  Tróia  arrazada  quer  mostramos. 

Cone  ao  êxito,  e  leva  o  leitor  sempre  230 

Rapidamente,  aonde  quer  leválo. 

Naõ  pára,  quando  lie  frívola  a  demora. 

Nos  sonhos  agradáveis,  que  descreve 

Com  tal  graça  mistura  o  falso  eo  c£rto 

Que  o  lim,  meio,  e  principio  nao  descrepaõ. 

O  que  pertendo,  e  quer  comigo  o  povo 

Observai,  se  quereis  cheia  a  platea, 

The  que  desça  a  cortina  e  ieiche  a  scêna 

The  que  peçao  o  actor,  findando,  os  vivas. 

De  cada  personage  'hábitos,  modos  240 

A  vareaçao  da  idade,  as  circumstancias 
Que  sao  da  natureza ;  notai  sempre. 

O  menino,  que  ja  fálla,  e  discorre 
Que  firme  piza  a  terra,  e  jogos  forma 
Quer  com  iguais  brincar,  e  sem  motivo 
Ora  -  ride,  em  ira,  ora  se  api  • 

E  a  cada  instante  o  g<  nio  -•.  u  vau  a. 

O  mancebo,  se  o  mestrf  •«•  d<   \ia 


28 

Colligit  ac  ponit  temerè,  et  mutatur  in  horas.        160 

Imberbis  juvenis,  tandem  custode  remoto, 

Gaudet  equis,  canibusque,  et  aprici  gramine  campi; 

Cereus  in  vitium  flecti,  monitoribus  asper, 

U tilium  tardus  provisor,  prodigus  aeris, 

Sublimis,  cupidusque,  et  amata  relinquere  pernix. 

Conversis  studiis,  aetas  animusque  virilis  166 

Quaerit  opes  et  amicitias,  inservit  honori; 
Commisisse  cavet  quod  mox  mutare  laboret. 

Multa  senem  circumveniunt  incommoda,  vel  quod 
Quaerit,  et  inventis  miser  abstinet,  ac  timet  uti:  170 
Vel  quod  res  omnes  timidè  gelidèque  ministrat; 


29 

Os  cavallos,  os  caens,  as  lutas  busca; 

Como  cera  a  impressão  do  vicio  toma,  2j0 

Os  concelhos  despreza;  descuidado, 

As  coizas  que  sao  úteis,  naõ  preserva. 

O  dinheiro  dispende,  sem  coQtálo 

Altivo,  turbulento,  apaixonado, 

Quer,  e  nao  quer  mil  coizas,  esquecendo  Võà 

Aquillo  mesmo,  que  buscava  ancioso; 

Que  sollicito  ha  pouco,  dezejava. 

Tem  a  idade  viril  outros  dezejos, 

Busca  o  adulto  empregos,  busca  amigos 

Aspira  às  honras,  com  cuidado  evita  260 

Acções,  que  ao  depois  chore  arrependido. 

Mil  iucómmodos  cercão  a  velhice 
Ou  seja  que  os  thezóiros  aceumuie 
E  que  tema  perdellos,  ou  que  avaro 
Mal  se  atreva,  a  tocar-lhe  o  cauto  velho.  ?6ó 

O  torpor  de  seus  membros  o  retarda 
Em  qualquer  movimento  ;  e  tr<  mul-imdo 
\  ai  cuin  va^ái  procrastiuando  as  coí/ 


30 

Dilator,  spe  longus,  iners,  avidusque  fuluri, 
Difiicilis,  qutrulus,  laudalor  temporis  acti 
Se  puero,  censor  castigatorque  minorum. 

Multa  ferunt  anui  veniéntes  còinrncda  secum,  175 
Multa  recedeutes  adimunt.     Ne  forte  seniles 
Mandentur  juveui  partes,  pueroque  viriles; 
Sc-mper  iu  adjunctis,  sevoque  morabimur  aptis. 

Aut  agitur  res  in  scenis,  aut  acta  refertur. 
Segniús  irritant  ânimos  demissa  per  aurem,  ISO 

Quàm  quae  sunt  oculis  subjecta  fidelibus,  et  qnai 
Tpse  sibi  tradit  spectator.     Non  tameu  intus 
Digna  geri  promes  in  scenam;  multaque  tolles 


31 

Esperando  sem  fim,  c  avidamente, 

Vendo  o  futuro,  que  sem  fructo  invoca.  270 

Queixa-se,  grunhe,  e  por  costume  gaba 

O  que  vio  no  seu  tempo;  sendo  neste 

Implacável  censor  da  mocidrj 

Comsigo  trazem,  mil,  coizas  suaves 
Os  annos,  quando  a  certa  altura  chegaõ;  _'7  í 

Muitas  passaò  com  elles,  quando  fogem. 

Fixemos  as  feições  de  cada  idade 
Para  naõ  dár  as  rugas  da  velhice, 
Ao  mancebo  gentil,  nem  ás  créanças, 
De  hum  homem  feito,  os  gestos  as  maneiras.        2:>(> 

No  theatro  as  acções,  se  representaõ : 
Outras  veses  somente  se  referem ; 
Mas  aquilo,  que  só  fere  os  ouvidos, 
Naõ  move  tanto,  quanto  move  aquilo, 
Que  se  vê,  e  que  os  olhos  fielmenU 
Fixao  n'alma  do  spectador  attento 
Coizas  ha,  que  a  rasaò  prohibe  a  scena : 
E  que  mais  vale,  que  se  passem  dentro. 


S2 

Ex  oculis,  quae  mox  narret  facúndia  praesens. 
Ne  nueros  coram  populò  Medça  trucidet;  185 

Aut  humana  palam  coquat  exta  nefarius  Atreus ; 
Aut  in  a  vêm  Progne  vertatur,  Cadmus  in  angueni. 
Quodcunque  ostendis  mihi  sic  incredulus  odi. 

Neve  minor,  neu  sit  quinto  productior  actu 
Fabula,  quae  posei  vult,  et  spectaia  reponi.  190 

Nec  Deus  intersit,  nisi  dignus  vindice  nodus 
Inciderit;  nec  quarta  loqui  persona  laboret. 

Actoris  partes  chorus  officiumque  virile 
Defendat;  neu  quid  médios  intercinat  actus, 
Quod  non  propósito  conducat,  et  haereat  apte.       195 


33 


Escondei  quanto  basta,  que  a  eloquência 

A  seu  tempo  relate  vivamente.  290 

Ante  o  povo,  jamais  seva  Medea 
Os  iunocentes  filhos  despedace; 
Nem  o  nefando  Atreu,  nas  grelhas  ponha 
As  entranhas  humanas  sem  disfarce. 
Nunca  em  pássaro  Progne  se  transforme,  í'9  3 

Ou  Cadmo  de  cobra  a  pélle  vista. 
Espectáculo  tal,  horror  tao  grande 
Sem  fazer-me  iliusaõ  me  offeude  ogosto. 

Os  actos  da  tragedia  tem  limites 
Nem  mais  de  cinco,  devem  ser  nem  menos  3  )0 

Só  quando  o  assumpto  seja  de  hum  Deus  digno 
He  que  deve  intervir  numen  no  entreixo. 

Tao  pouco  hum  quarto  actor  na  scéna  falle; 

O  coro,  de  hum  actor  a  parte  toma, 

E  quanto  canta,  se  refere  ao  todo;  305 

Ou  s'intertesse  co  assumpto  inteiro 

Os  bons  applaude,  amigos  concilia, 

Acalma  irados,  domina  os  arrogam»  j, 

F 


34 

Ille  bonis  faveatque,  et  concilietur  amicis, 

Et  regat  iratos,  et  amet  peccare  timentes : 

Ille  dapes  laudet  mensae  brevis;  ille  salubrem 

Justitiam,  legesque,  et  apertis  otia  portis: 

Ille  tegat  commissa;  Deosque  precetur  et  oret    200 

Ut  redeat  miseris,  abeat  fortuna  super  bis. 

Tibia  nou  ut  nunc  orichalco  vincta,  tubaeque 
iEmula;  sed  tenuis,  sirnplexque  foramine  pauco, 
Aspirare  et  adesse  choris  erat  utilis,  atque 
Nondura  spissa  nimis  coinplere  sedilia  flatu ;         203 
Quo  sane  populus  numerabilis,  utpote  parvus, 
Et  frugi,  castusque,  verecundusque  coibat. 
Postquam  ccepit  agros  extendere  victor,  et  urbeni 
Latior  amplecti  murus,  vinoque  diurno 


33 

A  frugal  mêza  louva,  as  leys  respeita, 

Louva  a  justiça,  e  paz,  que  das  cidades,  310 

As  portas  abre,  e  sustos  affugenta  ; 

Que  o  deposito  guarda  fielmente, 

Invoca  emfim,  os  Deuses,  que  dispensem 

Fortuna  aos  desgraçados,  aos  afflictos, 

E  que  aos  soberbos  pérfidos,  a  neguem.  315 

Nem  sempre  a  flauta  foi,  qual  hoje  a  vemos 

De  metal  guarnecida,  e  sonorosa 

Emula  do  clarim,  porem  singela 

Com  poucos  furos,  isso  lhe  bastava 

Para  ajudar,  e  acompanhar  os  coros,  320 

E  para  encher  de  sou  o  amphiteatro; 

Onde  acudia  menor  povo,  que  hoje, 

Mais  fácil  de  contar,  porem  mais  puro 

Mais  virtuoso,  e  muito  mais  modesto. 

Mas  logo,  que  este,  vencedor  dos  outros,  325 

Começou  a  estender  seus  territórios, 
A'á largar  da  cidade,  os  vastos  muros, 
E  a  libar  sem  pudor  tbneis  de  vinho 


• 


36 

Placari  Genius  festis  impune  diebus;  210 

Accessit  iiumerisque  modisque  libentia  major. 
Indoctus  quid  enim  saperet  liberque  laborum 
Rusticus  urbano  confusus,  turpis  honesto? 
Sic  prisca»  motumque  et  luxuriam  addidit  arti 
Tibicen,  traxitque  vagus  per  pulpita  vestem,  215 

Sic  etiam  fidibus  voces  crevere  severis, 
Et  tulit  eloquium  insolitum  facúndia  prasceps; 
Utiliumque  sagax  rerum,  et  divina  futuri 
Sortilegis  non  discrepuit  sententia  Delphis. 

Carmine  qui  trágico  vilem  certavit  ob  hircuBa,  220 
Mox  etiam  agrestes  Satyros  nudavit,  et  asper 
Incolumi  gravitate  jocum  tentavit;  eo  quod 
Illecebris  erat  et  grata  novitate  morandus 


37 

Durante  o  dia,  ao  génio  dos  praseres; 

Foi  o  canto  mais  livre:   Era  impossível  330 

Exigir  (fosse  o  gosto  mui  severo) 

Desse  ignorante  camponez  grosseiro 

Que  vem,  depois  de  rústicos  trabalhos, 

Descançar,  recrear-se,  e  confundir-se 

Com  cidadãos,  polidos  e  illustrados.  33  j 

Entaõ  foi  que  o  flautista  unio  a  dança. 
A'  prisca  e  simples  arte;  a  solta  cauda 
Ostentarão  actores  no  theatro. 

A  lyra  seria  assim  ganhou  cõ  tempo 
Mais  numero  de  tons  ;  mais  variedade.  3J0 

A  insólita  eloquência  resoluta 
Arriscou  phrases  novas,  dezusadas 
Que  assumirão  d'oraculos  a  forma, 
Ficando  enigmas  quaze,  as  chans  sentenças. 
Quem  disputou  vilmente  na  tragedia  3  15 

O  bode,  que  ao  depois  immola  à  Baco 
Mostrou  sem  custo  os  Satyros  despidos ; 
Unio  á  dignidade  do  cothurno 


38 

Spectator,  functusque  sacris,  et  potus  et  exlex. 

Verum  ita  risores,  ita  commendare  dicaces  225 

Conveniet  Satyros,  ita  vertere  seria  ludo, 

Ne  quicunque  Deus,  quicunque  adhibebitur  heros, 

Regali  conspectus  in  auro  nuper  et  ostro, 

Migret  in  obscuras  humili  sermone  tabernas: 

Aut  dum  vitat  humum,  nubes  et  iuania  captet.      230 

Effutire  leves  indigna  tragoedia  versus, 

Ut  festis  matrona  moveri  jussa  diebus, 

Intererit  Satyris  paulum  pudibunda  protervis. 

Non  ego  inomata  et  dominantia  nomina  solum, 

Verbaque  Pisones,  Satyrorum,  scriptor  amabo:    235 

Nec  sic  enitar  trágico  differre  colori, 


39 

Seus  epigramas  rústicos,  mordaz. 

Cuidou  em  recrear,  com  farça  nova  .350 

Aquelle,  que  dos  sacros  jogos  volta, 

Que  o  vinho  aquesce,  quebra  ás  leys  o  freio, 

E  lhe  he  grata  a  soltura  da  liugua^cm. 

Mas  emfin  convertendo  em  graça,  o  sei  i«  • : 
Em  scêna  pondo  Satyros  malignos 
Ha,  que  temer  que  heroes,  e  devindades 
Tendo-sse  visto  em  traje  magestoso, 
Purpura  dispaõ,  cayaò  do  áureo  throno, 
E  pello  estylo  vaõ  parar  nas  tendas, 
Morrer  na  escuredaò  do  estado  humilde.  360 

DefFeito  igual,  he  medo  de  arrastar-se 
Sobir  aos  astros,  e  tornar-se  em  nada. 

Nunca  deve  a  tragedia  degradar-se 
Fazendo  rir,  se  os  Satyros  a  cercão 
Deve  mostrar-se  nobre,  comedida 
Qual  modesta  matrona,  em  Roma  vemos 
Obrigada  a  dançar,  nos  sacrifícios. 

Çharos  Pisoes,  se  eu  farç  ^e 


40 

Ut  nihil  intersit,  Davusne  loquatur,  et  auclax 
Pythias,  emuncto  lucrata  Simone  taleutum, 
An  custos  famulusque  dei  Silenus  alumni. 

Ex  noto  fictum  carmen  sequar,  ut  sibi  quivis    240 
Speret  idem :  sudet  multum,  frustraque  laboret 
Ausus  idem.     Tautum  series  juncturaque  pollei . 
Tantum  de  medio  sumptis  accedit  honoris. 

Sylvis  deducti  caveant,  me  judice,  Fauni, 
Ne  velut  innati  triviis,  ac  poene  forenses,  24  5 

Aut  nimium  teneris  juvenentur  versibus  unquam; 
Aut  immunda  crepent,  ignominiosaque  dicta. 
OfTenduntur  enim  quibus  est  equus,  et  pater,  et  res : 
Nec  si  quid  fricti  ciceris  probat  et  nucis  emptor, 


41 

Nao  havia  tirar  o  véo  aos  termos, 

Nem  tanto  da  tragedia  desviar-me  370 

Que  nao  pozes^e  difíerença  grande 

Entre  Davo,  que  he  simplesmente  escravo 

E  o  caloteiro  Pithias,  que  hum  talento 

Furta  a  Simão,  fasendo  d'isso  gala, 

Ou  S\leno  de  hum  Deus  Ayo  e  seu  pagem.  375 

Nao  julgo  natural,  largando  as  selvas 
Que  os  Faunos  se  apresentem  desbocados 
E  que  sem  pejo,  obscenas  vozes  soltem  ; 
Quais  habitantes  dos  immundos  becos 
Ou  gerados  no  lodo  das  cidades.  380 

Assim  falando  offendem  os  ouvidos, 
A  o  culto  nobre,  a  o  cidadão  polido, 
Que  as  crõas  d'era,  distribue  aos  vates, 
Que  jamais  gostará,  do  que  recrea 
A  estulta  plebe,  a  qual  manjar  reputa 
Ervilhas  nozes,  d'isso  se  contenta. 

De  hum  assumpto  sabido,  eu  compuzera 
Sempre  e  minha  ficção  atimque  os  outros 

G 


42 

jequis  accipiunt  animis,  donantve  corona.  250 

Svllaba  longa  brevi  subjecta  vocatur  Iambus, 
Pes  citus  :  unde  etiam  trimetris  accrescere  jussit 
Nomen  lambeis,  cum  senos  redderit  ictus, 
Primus  ad  extremum  similis  sibi :  non  ita  pridem, 
Tardior  ut  paulò  graviorque  veniret  ad  ames,        255 
Spondeos  stabiles  in  jura  paterna  recepit, 
Commodus  et  patiens  ;  non  ut  de  sede  secunda 
Cederet  aut  quarta  socialiter.     Hic  et  in  Acci 
Nobilibus  trimetris  apparet  rarus,  et  Enní. 

In  scenam  missus  magno  cum  pondere  versus,   26*0 
Aut  operai  celeris  nimiúm  curâque  carentis, 
Aut  iguoratae  premit  artis  crimine  turpi. 


45 

Fácil  julgassem  competir  comigo. 

E  que  em  vao  trabalhassem  ;  de  tal  obra  390 

Depois  de  mille  esforços)  desestindo. 

Tanto  a  serie,  e  contexto  das  ideas 

Dá  lustre  aquillo,  que  vulgar  julgamos. 
Chamasse  Jambo  e  pé  rápido,  aquelle 

De  huá  sillaba  breve,  e  de  outra  longa,  395 

Jambico  o  de  seis  pés,  forma  o  trimetro. 
Ha  pouco  para  dar  mais  peso  ao  verso 

Para  vir  aos  ouvidos,  mais  sonoro 

O  pesado  spondeu,  se  unio  com  elle, 

Dócil,  fácil,  porem  nunca  cedendo  400 

O  segundo  lugar,  tao  pouco  o  quarto. 

Accius  apenas,  e  Anneus,  concernirão 

Nos  seus  nobres  trimetros  este  alumuo  ; 

Se  aparece  na  scena  hum  verso  cheio, 

De  spondeus  carregado  ;  fez-se  á  pressa  4  05 

Ou  mostra,  que  o  author,  sem  pejo,  ignora 

As  regras  d'arte,  que  tao  mal  exerce. 

A  falta  de  medida,  e  de  cadencia, 


44 

Non  quivis  videt  immodulata  poemata  judex  : 
Et  data  Romanis  vénia  est  indigna  poetis. 

Idcircone  vager,  scribamquelicente/;  an  omnes  265 
Visuros  peccata  putem  mea,  tutus,  et  intra 
Spem  veniae  cautus  ?  vitavi  denique  culpam, 
Non  laudem  merui.     Vos  exemplaria  Graeca 
Nocturna  versate  manu,  versate  diurna. 
At  nostri  proavi  Plautinos  et  números  et  270 

Laudavere  sales  :  uimium  patienter  utrumque, 
Ne  dicam  stultè,  mirati ;  si  modo  ego  et  vos 
Scimus  inurbanum  lépido  seponere  dicto, 
Legitimumque  sonum  digitis  callemus  et  aure. 

Sunt  delicta  tamen,  quibus  ignovisse  velimus.     275 
Nam  neq;  corda  sonum  reddit,  quem  vult  manus  etmens ; 


4,5 

Nem  todos  sentem  ;  indulgentes  muitos 

Perdoao  grandes  erros  aos  Poetas.  .       410 

He  para  compor  mal,  isso  desculpa  ? 
Para  escrever  conforme  quer  o  accaso  ? 
Ou  descançar  por  ter,  desculpa  certa? 

Censuras  evitar,  isso  nao  basta, 
Para  alcançar,  ou  merecer  louvores.  4  1  5 

Lançai  maõ  dos  modelos  da  alta  Grécia, 
Lede-os  de  dia  e  noite;  meditai-os. 
Nossos  avos  gabarão  muito  Plauto, 
Celebrarão  seus  raros  apothegmas 
Muito  bons  eraõ!....  d'indoIe  indulgente.  420 

Para  nao  disêr  mais,  os  felecito. 

Ao  menos  eu  e  vos,  naò  confundimos 
Dittos  insulsos,  verdadeiros  chistes, 
Apontamos  aonde  mora  a  graça, 
Sente  o  tympano  o  som  errado,  ou  justo.  4-2í 

Erros  ha'  que  a  desculpa  encontrão  Jogo 
Nem  sempre  a  corda  vibra  o  som,  qual  bu-ca 
A  maò  perita,  o  génio  sublimado» 


46 

Poscenlique  gravem  persaepe  remittit  acutum, 
Non  semper  feriet  quodcunque  minabitur  arcus, 
Verum  ubi  plura  nitent  in  carmine,  non  ego  paucis 
Offendar  maculis,  quas  aut  incúria  fudit,  280 

Aut  humana  parum  cavit  natura,  quid  ergo  ? 
Ut  scriptor  si  peccat  idem  librarius  usque, 
Quamvis  est  monitus,  Teniâ  caret:  et  citharoedus 
Ridetur,  chordâ  qui  semper  oberrat  eâdem : 
Sic  mihi  qui  multum  cessat,  iit  Chcerilus  ille,        285 
Quem  bis  tei  que  bonum  cum  risu  miror,  et  idem 
Indignor;  quandoque  bonus  dormitat  Homerus. 
Verum  opere  in  longo  fas  est  obrepere  somnum. 

Ut  pictura  poesis  erit ;  quae  si  propius  stes 
Te  capiet  magis ;  et  qn.asdam,  si  longius  abstes.     290 


47 

Por  hum  som  grave  as  veses  fere  o  agudo  : 

Nem, sempre  atinge  o  alvo,  a  veloz  fltxa  ;  430 

Mas  quando  n'huin  poema  as  maravilhas 

Excedem  muiton  a  soma  dos  deffeitos, 

Naô  me  offendem  as  manchas,  que  hum  descuido 

Como  pençao,  pagou  a  humanidade. 

A  o  copista  inexacto  nao  perdouo,  435 

Se  esquece  avizos,  e  repete  os  erros. 
Do  professor,  que  desconhece  as  cordas 
E  na  Cythera  quer  faser  prodígios 
He  permetido  vir;  Zombo  igualmente 
De  hum  author,  que  os  deffeitos  multiplica.  440 

E  he  para  mim  Chiriio,  em  cujas  obras 
Zombando,  aprovo  só,  quatro  ou  seis  versos. 

Gemo  comtudo  se  o  divino  Homero 
Por  acaso  descai,  ou  se  dormitta, 
Se  em  taõ  longo  trabalho  o  sono  o  assalta  143 

O  Poeta  cançado,  tem  desculpa. 

Bem  como  na  pintura,  ha  certos  rasgo* 
Na  Poesia  ;  que  cm  distancia  agradao  : 


48 

Haec  amat  obscurum :  volet  haec  sub  luce  videri, 
Judieis  argutum  quae  non  formidat  acumen, 
Ha?c  placuit  semel :  haec  decies  repetita  placebit. 

O  major  juvenum,  quamvis  et  você  paterna 
Fingeris  ad  rectum,  etperte  sapis ;  hoc  tibi  dictum  29^ 
Tolle  memor :  certis  médium  et  tolerabile  rebu? 
Rectè  concedi.     Consultus  júris,  et  actor 
Causarum  mediocris  abest  virtute  diserti 
Mas&alse,  nec  scit  quantum  Cascellius  Aulus : 
Sed  tamen  in  pretio  est.  Mediocribus  esse  poetis  300 
Jíon  homines,  non  Dii,  non  concessere  columnse. 


49 

Outros,  que  ao  perto,  muito  mais  deleitaõ  : 

De  luz  mais  clara,  aquelles  necessitaõ, 

Sem  temer  do  censor,  a  vista  aguda. 

Outros,  simples  crepúsculo  lhe  basta. 

Há  coizas,  que  huâ  vez  só,  nos  contentao, 

Dez  vezes,  c  mais,  outras  reclamamos 

De  seu  doce  prestigio  apaixonados.  i '.  5 

Tu  dos  Pizoés,  morgado !  iudaque  sejas 
Por  ti  mesmo  instruido,  eque  gostoso 
As  paternas  lições  aproveitasses; 
Com  tudo,  escuta,  e  guarda  na  memoria 
O  que  m'inspira  o  gosto,  e  dizer  quero  46tí 

Géneros  ha,  nos  quais  a  mediania 
Soffier-se  pode,  sem  desdoiro  grande. 
Hum  letrado  commum  medir  nau  pode, 
Seu  talento,  ao  talento  de  Messala 
Nem  co'  saber  profundo  de  Casselio  4 ri  5 

Seu  saber;  bem  que  preço  lhe  concedaõ. 

Mas  ser  poeta  mediano,  he  crime, 

Que  aaõ  perdoaò  Deuses,  nem  humanos 

H 


50 

Ut  gratas  inter  mensas  symphonia  discors, 

Et  crassum  unguentam,  et  Sardo  cum  melle  papaver 

Offendunt ;  poterat  duci  quia  coena  sine  istis  ; 

Sic  animis  natum  inventunique  poema  juvandis,     305 

Si  paulum  à  summo  discess.it,  vergit  ad  imum. 

Ludere  qui  nescit,  campestribus  abstinet  anuis  : 
índoctusque  pila;,  discive,  trochive,  quiescit ; 
Ni  spissa?  risum  tollant  impune  corona?. 
Qui  nescit,  versus  tamen  audet  íingere.     Quidni  ?  3 10 
Liber  et  ingenuus,  praesertim  census  equestrem 
Summam  nummorum,  vitioque  remotus  ab  omni. 
Tu  nihil  invitâ  dices  faciesve  Minerva, 
Id  tibi  judicium  est,  ea  mens.     Si  quid  tamen  olim 


$1 

Tal  offende  no  meio  de  li  uni  banquete 
A  discordante  orchestra,  o  cheiro  torpe  470 

De  hum  perfume  nocivo,  tal  enjoa 
Insípida  ptisana  entre  os  manjares 
Quanto  disgosta  a  poesia  insulsa : 
Que  em  lugar  d'encantar  almas  sensíveis 
Descai  por  força  ao  mais  rasteiro  ponto  1 7  5 

Se  naò  s'elleva  ao  ponto  mais  subido. 

Quem  naò  sabe  esgrimir  nas  Mareias  lutas 
Cautelozo  das  armas  se  desvia  : 
Quem,  ignora  nos  jogos,  a  destreza 
A  pela,  o  disco,  a  argola  naò  comete  ;  450 

Teme  os  que  à  roda  observaõ,  teme  a  mofa  ; 
Mas,  sem  saber,  empreude  fazer  versos. 
E  por  que  naò  ?  .  .  .  Se  he  livre,  e  bem  nascido  ; 
Se  tem  rendas,  e  vive  nobremente  ?  .  .  . 
Se  he  cavalheiro,  honrado,  e  mui  polido  t  4s.í 

Mas  tu  mancebo  !   tu  tens  muito  seno». 
Engenho  claro,  para  emprender  coizas 
Que  do  próprio  talento,  naò  saò  íiíhas. 


52 

Scripseris,  in  Metii  descendat  judieis  aures,  315 

Etpatris;  et  nostras;  nonumque  prematur  in  aiiiium. 
Membranis  intiis  positis,  delere  licebit 
Quod  uon  edideris.     Nescit  vox  missa  reverti. 
Ignotum  Tragicae  genus  iuvenisse  Camoenae 
Dicitur,  et  plaustris  vexisse  poemata  Thespis,       320 
Quae  canerent  agerentque  peruneti  fsecibus  ora. 
Post  hunc  personse  pallaeque  repertor  honesta; 
JE^chyius,  et  modicis  instravit  pulpita  tiguis  ; 
Et  docuit  magnumque  loqui,  nitique  cothurno.     325 
Successit  vetus  his  Comoedia,  nou  sine  multa 
Laude,  sed  irj  vitium  libertas  exeidit,  et  vim 
Dignam  lege  regi :  lex  est  accepta :  chorusque 


53 

Quando  a  Musa  te  chame  e  tente  a  veia, 
Em  querendo  escrever,  consulta  Metia  490 

A  mim,  ao  illustre  pai,  expoê  as  obras. 

Por  dez  annos  fechado,  esteja  o  livro 
Assim  podes  polir  os  teus  escritos, 
Antes,  que  os  julgue,  o  publico  severo. 
As  palavras  naõ  voltaô,  quando  escapao.  4^5 

Dizem,  que  Thespis  foi  na  prisca  idade, 
Inventor  da  tragedia,  e  que  sem  gosto 
Tingio  de  mosto,  as  faces  dos  actores  : 
Q.u    em  carros  tranzitavaò,  repetindo 
Seus  poemas  informes,  ou  cantando. 

Eschilo  depois  veio,  eos  seus  vestindo  500 

A  mascara  lhe  deu  ;  armou  theatros 
Ensinou-lhe  a  falar,  com  dignidade 
E  a  segurar  os  pés,  no'  alto  cothurno. 

Veio  a  antiga  comedia  succeder-lhe 
Com  grande  applauso  ;  mas  com  tal  soltura  505 

Que  foi  precizo,  reprimir-lhe  o  voo, 
E  a  h  y  vedar,  o  seu  nocivo  excesso. 


I 

/ 


54 

Turpiter  obticuit,  sublato  jure  nocendi. 

Nil  intentatum  nostri  liquere  poetas, 
Nec  minimum  meruere  decus,  vestigia  Graeca       330 
Ausi  deserere,  et  celebrare  domestica  facta: 
Vel  qui  pretextas,  vel  qui  docuere  togatas. 
Nec  virtute  foret  clarisve  potentius  ai  mis 
Quàm  linguâ  Latium,  si  uon  offenderet  unum 
Quemque  poetarum  limae  labor,  et  mora.  Vos  ô  335 
Pompilius  sanguis,  carmen  reprehendite,  quod  non 
^J  ulta  dies  et  muita  litura  coercuit,  atque 
Perfectum  decies  non  castigavit  ad  unguem. 

Ingenium  mísera  quia  fortunatius  arte 
Credit,  et  excludit  sanos  Helicone  Poetas  34Q 

Demociitus,  bona  pars  non  ungues  ponere  curat, 
Non  barbam  ;  secreta  petit  loca  ;  balnea  vitat. 


J.) 


E  náô  podendo  corromper  a  scéna 

Emudeceu  envergonhado  o  coro.  010 

Tentarão  nossos  vates,  e  com  gloria 
Quanto  he  possível,  sem  seguir  o  trilho 
Servilmente,  que  os  Gregos  lhe  mostrarão. 
Bastarão  lhe  os  assumptos,  go  Romanos; 
E  talvez  fosse  o  Latium  taõ  famoso  3 1  5 

Nas  Iettras,  qual  brilhou  sempre  nas  armas, 
Se  o  trabalho  da  lima,  se  a  demora 
Naò  fosse  taô  difficil  aos  Poetas 
Vos  raça  de  Pompilio  sede  austeros  : 
Nao  aproveis  jamais  esses  poemas  .520 

Que  naò  apura  o  tempo,  a  lima,  o  gosto, 
Que  naõ  forao  dez  veses,  castigados. 

Se  Demócrito  crê  que  he  nullo  o  estudo 
E  que  o  engenho  só,  produz  Poetas, 
Se  do  Parnaso  exclue,  o  comum  senço, 
Por  isso  despresaudo  tantos  a  arte 
Fogem  dos  homens  desgrenhados,  tristes, 
Nunca  os  banhos  frequeutaò,  nem  se  aliuhaõ 


56 

Nanciscetur  enim  pretium  nomenque  Poeta3, 
Si  tribtis  Anticyris  caput  insanabile  nunquam 
Tonsori  Licino  commiserit.     O  ego  leevus,  345 

Qui  purgo  bilem  sub  verrii  temporis  horam. 
Non  alius  faceret  meliora  Poemata.     Verum 
Nil  tanti  est.     Ergo  fungar  vice  cotis,  acutum 
Reddere  quae  ferrum  valet,  exors  ipsa  secancli. 
Múnus  et  officium  riil  scribens  ipse  docebo  :         350 
Unde  parentur  opes,  quid  alat  formetque  Poetam, 
Quid  deceat,  quid  non ;  quò  virtus,  quò  ferat  error. 
Scribendi  rectè  sapere  est  et  principium  et  fons. 
Rem  tibi  Socrática:  poterunt  ostendere  chartae. 
Verbaque  provisam  rem  non  invita  sequentur.       3  55 


57 

Ao  estro  entregues,  que  produz  phantasmas. 

Na  verdade,  que  assim,  fama  adquirem  530 

E  nome  de  poetas,  certos  homens 

Recuzando  a  o  barbeiro  bua  cabeça, 

Que  nem  três  Antecyras  curar  podem. 
Oh  que  loucura  a  minha !  pois  tempero 

Na  primavera  sempre,  o  sangue,  ea  bile.  535 

Que  poemas  sublimes  naõ  faria? 

E  milhor  que  ninguém  sendo  bilioso. 

Naõ  vale  a  pena;  aspiro  a  ser  somente 
A  pedra  d'amolár,  que  nao  cortando 
Fará  comtudo,  com  que  o  ferro  corte.  5 10 

Sem  escrever  direi  como,  s'escreve. 
Como  deve  o  escriptor  juntar  seus  fundos. 
Em  que  consiste  a  essência  de  hum  poeta: 
O  que  serve,  ou  naõ  serve,  adonde  leva 
A  regra,  o  gosto,  os  erros  e  a  ignorância.  515 

Clara  instrucçaõ,  saber,  lie  fonte,  origem 
D'escritos  bons;  Socráticas  doutrinas 
Haõde  inspirar  ideas  numerosa?, 


58 

Qui  dldicit  pátria?  quid  debeat,  et  quid  amicis, 
Quo  sit  amore  parens,  quo  frater  amandus,  ethospes-, 
Q.uod  sit  conscripti,  quod  judieis  officium,  qua± 
Partes  iu  bellum  missi  ducis;  ille  profecto 
Reddere  persome  scit  convenientia  cuique.  360 

Respicere  exemplar  vitoe  morumque  jubebo 
Doctum  imitalorem,  et  veras  hinc  ducere  voces. 
Interdum  speciosa  locis,  morataque  recte 
Fabula  íiullius  veneris,  sine  pondere  et  arte 
Valdius  oblectat  populum,  meliusque  moratur,     365 
Quàm  versus  inopes  rerum,  nugaeque  canorre. 
Graiis  ingenium,  Graiis  dedit  ore  rotuudo 
Musa  loqui,  praeter  laudem  nullius  avaris. 


59 

E  as  palavras  viraõ  para  expressalas. 

Quem  sabe  quanto  deve  ás  leys,  á  pátria,  550 

Quanto  aos  amigos ;  qual  calor  no  peito 

Cria  o  paterno  amor,  cria  o  fraterno ; 

Quais  da  hospedagem  sejao  os  deveres; 

Que  integridade  ao  senador  compette, 

A  ao  cargo  de  Juiz,  e  que  talentos  õbb 

De  hum  general  na  guerra  exige  o  estado. 

Hábil  imitador,  a  vista  estende, 

V  ivos  modellos  topa  a  cada  passo. 

Contemplaí-lhe  a  conducta  e  seus  costumes  • 

Fazei  que  fallem  no  seu  próprio  estylo  5 60 

Quando  hum  assumpto  he  grato,  e  que  se  observaò 

Exactamente  os  caracteres  e  usos, 

Sem  arte,  graça,  ou  dignidade  escrito 

Recreia  mais,  o  publico  mil  vezes, 

Que  outros  assumptos  em  pomposos  versos  õQõ 

Correctos,  porem  nullos,  quanto  ás  coisas. 

Tinhaô  os  Gregos  génio,  (ficção  tiuhaõ 
Pois  a  gloria  somente,  ambicionavaò. 


60 

Romani  pueri  longis  rationibus  assem 

Discunt  in  partes  centum  diducere.     Dicat  370 

Filius  Albini,  si  de  quincunce  remota  est 
Uncia,  quid  superat  ?  poteras  dixisse,  triens  :  eu, 
Rem  poteris  servare  tuam  :  redit  uncia  :  quid  fit  ? 
Semis.     At  haec  ânimos  aerugo  et  cura  peculi 
Cúm  semel  imbuerit,  speramus  carmina  fingi        375 
Posse  linenda  cedro;  et  levi  servanda  cupresso  ? 

Aut  prodesse  volunt,  aut  delectare  Poetas : 
Aut  simul  et  jucunda  et  idónea  dicere  vitae. 
Quicquid  praecipies,  esto  brevis:  ut  cito  dieta 
Percipiant  animi  dociles,  teneantque  íideles.  380 

Omne  supervacuum  pleno  de  pectore  manat. 


<5l 

O  juvemi  ardor  dos  nossos  hoje 

Outros  empregos  tem,  e  s^  lhe  eusiuaõ  570 

A  calcular  de  hum  modo  prolongado 

Como  hum  ás,  em  cem  partes  se  divide. 

Dise  filho  d'Albinio,  de  seis  onças 
Se  huma  tirais,  que  resta? — Restaõ  sinco. 
Belamente!  com  isso  estais  campando.  575 

Adjuntai-lhe  huma  onça,  quanto  soma?  .  .  . 
Sette.  .  .  .  Porem  passada  esse  ferrugem 
Essa  paixão  do  ganho,  que  envilece 
NaÕ  se  pode  esperar  que  fassas  versos, 
Dignos  das  Musas,  dignos  de  guardar-se  580 

Em  cofres  preciozos  de  cypreste 
Nem  que  no  óleo  de  cedro  se  preservem. 

Poetas  querem,  ou  dár  gosto  á  geute, 
Ou  darnos  instrucçaõ,  e  as  mais  das  veses 
Instruir,  e  agradar  ao  mesmo  tempo.  555 

S'instruis,  sede  breve,  nos  preceitos, 
Afim  que  brevemente,  vos  precebao, 
Que  depressa  se  aprendaõ,  e  a  memoria 


62 


Ficta  voluptatis  causa  sint  próxima  veris  : 


Nec  quodcunque  volet,  poscat  sibi  fabula  credi : 


Neu  prausae  lamiae  vivum  puerum  extrahat  alvo. 


Centúrias  seuiorum  agitant  expertia  frugis  :  385 


Celsi  praetereunt  austera  Poemata  Rhamnes. 


Omne  tulit  punctum,  qui  miscuit  utile  dulci, 


Lectorem  delectando,  pariterque  rnonendo. 


Hic  meret  aera  liber  Sosiis,  hic  et  mare  transit, 


Et  longuui  noto  scriptori  prorogat  aevum.  390 


♦ 


63 

Os  guarde  fielmente;  quando  he  muito 

Tresborda  qual  licor,  que  excede  o  vaso.  590 

Para  agradar,  precizasse  verdade; 
A  ficção  verosímil,  só  contenta. 
Naõ  tem  direito  a  scena  dmganar-nos. 
Nem  de  arrancar  do  estômago  da  maga 
Viva  a  creauça,  devorada  á  pouco.  H)S 

O  concelho  dos  velhos  uaò  perdoa 
Os  versos  que  sem  frueto  se  lhe  offrocem. 
E  os  cavalheiros  secios,  naõ  ih'  importaò 
As  peças  onde  reina  a  seriadade. 

Toca  o  ponto,  o  que  unir,  útil,  e  doce)  600 

O  le)  tor  ensinando,  e  devertindo 
Enriquece  o  livreiro  huma  tal  obra, 
Passa  os  mares,  a  seu  author  segura 
Gloria  perfeita,  fama  inalterável. 

Viviaõ  nas  florestas,  os  humanos,  dOr> 

Quando  Orpheu  que  era  interpetre  dos  Deu 
Seu  sacerdote ;  lhe  inspirou  piedade 
Horror  do  sangue,  c  d'aiiinento  impuro. 


0 


64 


Silvestres  homines  sacer  interpresque  Deorum 
Ccedibus  et  victu  faedo  deterruit  Orpheus  ; 
Dictus  ob  hoc  lenire  tigres  rapidosque  leonês. 
Dicíus  et  Amphion,  Tkebanae  couditor  areis, 
Saxa  movere  sono  testudinis,  et  prece  blandâ        3  9-5 
Ducere  quò  vellet.     Fuit  haec  sapientia  quondam, 
Publica  privatis  secernere,  sacra  profauis; 
Concubitu  prohibere  vago,  dare  jura  maritis; 
Oppida  moliri,  leges  incidere  ligno. 
Sic  honor  et  nomen  divinis  vatibus  atque  400 

Carminibus  venit.     Post  hos  insignis  Honierus 
T^rtaeusque  mares  ânimos  in  Martia  bella 


65 

Daqui,  diceraõ,  que  domara,  os  tyg^es. 

E  que  acalmava  dos  Leoés  a  fúria 

Do  celebre  AmphiaÕ,  taò  bem  julgarão, 

Que  ao  son  da  iyra,  fundador  de  Thebas 

Esta  nova  cidade,  edeficara  ; 

Que  os  seus  doces  accentos,  atrahiaõ 

As  pedras,  as  madeiras,  e  esses  mesmos  (J 1  5 

No  seu  próprio  lugar,  as  colocavaò. 

O  ser  Sábio  em  tal  tempo  consistia 
Em  distinguir  o  bem  geral,  do  próprio, 
O  Sagrado  interesse,  do  profanno, 
Em  quartar  a  desordem,  dos  costumes,  620 

Fixar  dos  Hymeneus,  as  levs  suaves  ; 
Edeficar  cidades,  e  nas  taboas 
Gravar  as  leis,  que  a  sociedade  união. 
Assim  ganhar**  honra,  e  nome  os  ** 
E  seus  Tersos  divinos  se  exaltarão. 

Apareceu  defloii  o  insigne  Homero, 
EThirteu  cujos  cantos  provoca\aC 
Os  ânimos  guerreiros,  ao  combate] 

K 


66 


Yersibus  exacuit :  dictae  per  carmina  sortes  ; 


Et  vitae  monstrata  via  est :  et  gratia  regum 


Pieriis  tentata  modis  :  ludusque  repertus,  405 

Et  longoruni  operum  tinis  :  ne  forte  pudoii 
Sit  tibi  Musa  lyrae  solers,  et  cantor  Apollo. 
Natura  fieret  laudabile  carmen,  an  arte, 
Quaesitum  est :  ego  nec  studium  sine  divite  venâ, 
Nec  rude  quid  prosit  video  ingenium:  alterius  sic  41G 
Altera  poscit  opem  res,  et  conjurat  amice, 
Qui  studet  optatam  cursu  contingere  metam, 
Multa  tulit  fecitque  puer,  sudavit  et  alsit, 


\ 


67 

Em  verso  responderão  os  Orados 

Explicousse  a  moral  n'esta  linguagem,  630 

Comoveraõ-se  os  Reis,  á  voz  das  Musas ; 

A  poesia  em  fin  creou  Theatros. 

Ao  lasso  cidadão  prestou  recreio 

Calmando  das  fadigas  o  cançasso. 

Depois  de  memorar  taò  dignos  factos  635 

Quem  haverá  que  tema  unir  seu  canto 

A'  iyra  de  Polymnia,  á  voz  dApollo  ? 

O  valor  dos  poemas  de  que  nasce  ? 
Ha  questões  ;  e  duvidaô  vulgarmente 
Se  d'arte  vem,  se  vem  da  Natureza.  640 

Sem  génio,  estudo,  ignoro  de  que  serve 
Nem  o  que  possa,  o  génio,  semo  estudo. 
Mutuamente  hum  e  outro  se  socorrem, 
Devem  ser  no  poeta,  inseparáveis. 

Quanto  exercido,  esforço,  desde  a  infância        615 
Fez  quem  aspira  ao  premio  na  carreira  ? 
O  calor  suportou,  ofrio  ;  sóbrio, 
De  amor,  e  Bacho,  rejeitou  praseres. 


68 

Abstinuit  Venere  et  vino.     Qi.i  Pvtliiu  cantat 

Tibicen,  didicit  piiú:?,  exthnuitque  magistrum.      415 

N  une  satis  est  dixisse  ;  ego  mira  poemata  pango : 

Oecupet  extremum  scabies  :  mihi  turpe  rtlinqui  est 

Et  quod  non  didici,  sauè  nescire  fateri. 

Ut  prseco  ad  mercês  turbam  qui  cogit  emendas, 

Assentatores  jubet  ad  lucrum  ire  poeta,  420 

Dives  agris,  dives  positis  in  fcenore  uummis. 

Si  vero  est  unctum  qui  rectè  ponere  possir, 
Et  spondere  levi  pro  paupere,  et  eripere  atris 

Litibus  implicitum  ;  mirabor,  si  sciet  inter 

Noscere  muidacem  veiumque  beatus  amicum.     425 


C9 

O  tocador  da  flauta,  que  nas  festas 
D'Apoi.0  Piíhio,  :?o!ta  os  seus  acceutos;  CóO 

YSi  antes,  por  hum  mestre  castigad  >. 
iVIas  os  poetas,  basta  que  nos  digato. 
Fassj  versos  sublimes.     Av  d'aquelle 
Que  atraz,  liça  dos  outros,  e  lhe  toca 
O  degrau  derradeiro  nesta  escala.  Ci5  3 

O  pejo  o  vexa,  se  ultimo  se  julga; 
E  naò  quer  com  eíTeito  convir  nunca, 
Que  ignora,  e  naõ  aprende,  o  que  naõ  sabe. 

Como  quem  apiegoa,  e  vender  busca 
Ricas  mercadorias;  hum  poeta  630 

De  grandes  capitais,  quintas,  palácios, 
Acossa  os  lisongeiros,  que  o  rodeao, 
Ávidos  de  ginhar,  e  na  esperança 
De  converter  em  oiro  vaõs  a^Iaasos. 
Se  alem  disso  o  poeta  dá  banquetes,  665 

Se  dá  fiança  ao  gabadui  rufiado, 
Se  co  a  bolsa  o  tirou  de  giandc  ai  ertoj 
Então  difícil  he,  que  acene  nunca 


70 

Tu  seu  donaris,  seu  quid  donare  voles  cui, 

Nolito  ad  versus  tibi  factos  ducere  plenum 

Laetitiae.     Clamabit  enim,  Pulchrè,  bene,  rectè: 

Pallescit  super  his  :  ttiaiií  stillabit  amicis 

Ex  oculis  rorem  :  saliet  tundet  pede  terram.         430 

Ut  qui  conducti  plorant  in  funere,  dicuut 

Et  faciunt  propè  plura  dolentibus  ex  animo :  sic 

Derisor  vero  plus  laudatore  movetur. 

Reges  dicuntur  multis  urgere  culullis, 

Et  torquere  mero,  quem  perspexisse  laborent        433 

An  sit  amicitiâ  dignus,  si  carmina  condes, 

Nunquam  te  fallaut  animi  sub  vulpe  latentes. 


71 

Qual  he  o  adulador,  qual  he  o  amigo. 

Se  quizereis  brindar  alguém,  sentido !  .     .  6 70 

Naõ  deveis  ler  lhe  entaõ  os  vossos  versos, 
Se  aecaso  alvoroçado  os  dons  espera 
Absorto  exclamará,  que  obra  divina  ! 
Extático,  e  de  gosto,  enternecido, 
Hade  chorar  e  rir,  bater  as  palmas.  ôfã 

Estes  saò  como  aquellas  aquém  pagaô 
Para  chorar  nos  funerais  pomposos, 
E  chorão  mais,  que  o  verdadeiro  arlictu. 

Disem  que  os  reis,  provocaò  nos  banquetes 
Os  convidados  a  esgotar  os  copos 
A  faser  honra  aos  vinhos  generosos  ■ 
Tentando  assim  a  incauta  língua  a  ponto, 
De  revelar  do  animo  os  arcanos. 
Naò  vos  deicheis  lograr,  fasendo  versos, 
A  malícia  temei;  que  se  disfarça  ^bi 

A  raposa  voraz,  que  a  toca  esconde : 
Indagai  no  louvor  o  que  he  sincero. 

Quando  alguém  a  Quinlilio  consultas  a 


72 

Quintilio  si  quid  recitares,  Corrige,  sodes, 

Hoc,  aiebat,  et  hoc :  meliús  te  posse  negares 

Bis  terque  expertum  frustra;  delere  jubebat,         440 

Et  male  tornatos  incudi  reddere  versus. 

Si  defendere  delictum,  quàm  vertere,  mailes; 

Nullum  ultra  verbum  aut  operam  insumebat  inanem, 

Quin  sine  rivali  teque  et  tua  solus  amares. 

Vir  bónus  et  prudens  versus  reprehendet  inertes,  445 

Culpabit  duros,  iucomptis  allinet  atrum 

4 

Transverso  calamasiguum;  ambitiosa  recidet 
Ornamento  ;  parum  ciai  is  lucem  dare  coget ; 
.Arguet  ambiguè  dictum;  mulauda  notabit: 


73 

Nas  obras  apontando  ;  lhe  disia, 

Isto,  crede-me,  exige  que  Remende  600 

Nao  he  correcto  aqui,  mas  se  a  resposta 

Contras  opunha,  e  claro  demonstrava 

Que  era  impossível  melhorar  o  objecto, 

Que  três  veses,  e  mais,  inutilmente 

Se  trabalhara;  .  .  .  instava  que  riscassem,  6QS 

Que  de  novo  os  maus  versos  aleijados 

Na  bigorna  com  forca  os  martelassem. 

Recusavaõ?  .  .  Entaõ  emudecia, 

A  seu  maligno  fado  os  entregava 

Era  inútil  tomar  maior  trabalho,  700 

Namorados  de  si  achava  acerto 

Que  sem  rival,  a  si  se  idolatrassem. 

O  homem  bom,  o  sábio  reprehende 
Os  versos  frouxos,  e  reprova  os  duros 
Corrige  aquelles  nimiamente  ornados;  "06 

Quer  mais  clareza,  no  sentido  escuro 
E  firme  expulsa  equivocas  palavras. 

Implacável  serei,  novo  Aristarco 


74 

Fiet  Aristarchus,  nec  dicet,  cur  ego  amicum  450 

Offendam  in  nugis  ?     Hcu  nuga*  seria  ducent 
In  mala  derisum  semel  exceptumque  sinistre. 

Ut  mala  quem  scabies,  aut  morbus  regius  urget, 
Aut  fanaticus  error,  et  iracunda  Diana  ; 
Vesanum  tetigisse  timent  fugiuntque  poetam,         455 
Qui  sapiunt :  agitant  pueri,  incautique  sequuntur. 
Hic  dum  sublimes  versus  ructatur;  et  errat, 
Si  veluti  merulis  intentus  decidit  auceps 
In  puteum  foveamve ;  licet,  Succurrite;  Iongum 


75 

Naò  heide  hir,  por  poupar  os  meus  amigos, 

Perdoar  bagatelas,  intendendo      .  7  10 

Que  por  taõ  pouco  he  lastima  arligilo3. 

Tais  bagatellas  muito  prejudicaõ; 

Se  ao  publico  se  expõe  provocaõ  riso. 

Como  quem  foge  a  peste,  e  que  se  aparta 
De  hum  homem  ja  tocado  do  contagio :  715 

Como  quem  teme  as  fúrias,  que  perseguem, 
Aquelles,  que  os  remorsos  desatinaõ. 
Qual  se  desvia  de  hum,  que  perde  o  senço 
E  que  incurso  na  cólera  de  Hecaíe 
Maniaco  labuta  entre  phantasmas; 
Tais  se  retiraò  racionais  humanos 
De  quem  toma  a  paxaõ  de  fazer  versos. 
Os  rapazes  porem,  na  rua  o  seguem 
E  delle  zombaô  sem  maior  cautélía 
Em  quanto  furioso  insulta  as  Musas  '-2i 

St  u*  hvnmos  majestosos  recitando. 
Mas  se  sem  tino  cai  nhuma  cisterna 
Ou  se  despenha  de  huma  rebanceira 


76' 

Clamet,  Io  eives ;  uon  sit  qui  tollere  curret.  460 

Si  quis  curret  opem  ferre,  et  demittere  funem; 
Qui  seis,  an  prudens  huc  se  dejecerit,  atque 
Servari  nolit?  dicam.     Siculique  poeta 
Narrabo  interitum.     Deus  immortalis  haberi 
Dum  cupit  Empédocles,  ardentem  frigidus  ^Etnam 
Insiluit.     Sit  jus,  liceatque  perire  poetis.  466 

Invitum  qui  servat,  idem  facit  occidenti. 
Nec  semel  hoc  fecit ;  nec  si  retractus  erit,  jam 
Fiet  homo,  et  ponet  famosae  mor  tis  amorem. 


77 

Qual  caçador  que  espera  apanhar  merlos 

Por  mais  que  exclame,  .  .  .  Cidadãos  socorro!      730 

Deichaio,  la  ficar.     Pois  se  quizerem 

Huma  corda  lançar-lhe  por  piedade 

Eu  dicera,  quem  sabe,  se  elle  mesmo 

Quer  que  o  tirem  de  lá?  e  se  esse  salto 

Naò  foi  deliberado,  heróico  empenho.  .  .  .  73 i 

Citarei  a  aventura  de  hum  poeta 
Que  na  Sicilia  deu  tao  grande  brado 

Para  ser  invocado  como  os  Deuses 
Empédocles  saltou  nas  chamas  do  Etna. 
O  juz  naõ  disputemos  a  hum  poeta  f  10 

De  morrer  sem  disêr  adeus  á  gente. 
Se  quiz  morrer,  salvalo,  he  darlhe  a  morte. 
Escorregou  mil  veses,  nao  he  esta 
A  primeira;  se  o  tirão  deste  passo 
Nem  por  isso,  a  inania  hade  passar-lhe;  715 

A  paixão  d'alcançár,  morte  famosa. 
E  quem  sabe  este  mal  donde  lhe  nasce  ? 
Se  profanou  de  hum  pai  as  frias  cinzas 


78 

Nec  satis  apparet,  cur  versus  factitet:  utrum        470 
Minxerit  in  pátrios  cineres,  an  triste  bidentai 
Moverit  incestus :  certè  furit,  ac  velut  ursus, 
Objectos  caveae  valuit  si  frangere  clathros, 
Indoctum  doctumque  fugat  recitator  acerbus. 
Quem  vero  aripuit,  tenet  occiditque  legendo  475 

Non  missura  cutem  nisi  plena  cruoris  hirudo. 


79 

Ou  se  pisou  lugares  consagrados 

Pellos  raios,  que  vibra  a  maõ  de  Jove.  7  50 

Sabemos,  so  que  he  Louco,  isso  nos  basta. 

A  o  velo  cuidareis  que  hum  urso  vedes, 

Que  da  toca  quebrou  as  férreas  barras, 

Tal  he  quando,  implacável  nos  repete 

Os  versos,  com  que  espanca  o  sábio,  o  néscio.      755 

Infelix  o  que  apanha,  naò  o  Larga 

Sem  o  esfalfar,  relendo  seus  escritos, 

Sanguechuga  cruel,  que  nao  despega, 

Sem  se  fartar  do  sangue,  de  quem  morde.  759 


ESSAIO   SOBRE    A   CRITICA. 


POR  A.  POPE. 


M 


AN 


ESSAY    ON    CRITICISM 


BY  ALEXANDER  POPE. 


'Tis  hard  to  say  if  greater  waiit  of  skill 

Appear  in  writing  or  in  judging  ill ; 

But  of  the  two,  less  dangVous  is  th'  offence 

To  tire  our  patience  than  mislead  our  sense : 

Some  few  in  that,  but  numbers  err  in  this,  5 

Ten  censure  wrong  for  one  vho  writes  aniiss; 

A  fool  might  once  himself  alone  expose ; 

Now  one  in  verse  makes  many  more  in  prose. 

'Tis  with  our  judgments  as  our  watches,  none 
Go  just  alike,  yet  each  believes  his  own.  10 

Id  poets  as  true  genius  is  but  rare, 
True  taste  as  seldom  is  the  critic's  share ; 
Both  must  alike  from  Heav'n  derive  their  light, 
These  bom  to  judge,  as  well  as  those  to  write. 


ESSAIO  SOBRE  A  CRITICA. 


POR  A.  POPE. 


Nao  sei  dizer  qual  mostra  menos  arte 

Se  quem  escreve  mal,  se  quem  mal  julga: 

Eutr'  ambos  menos  risco  ha  menos  damna 

O  que  me  cança  que  esse  que  m'engana. 

Dos  primeiros  ha  poucos,  muitos  destes.  5 

Por  hum  que  escreve  mal,  dez  mal  censuraÕ; 

Hum  néscio  a  si  somente  expõe  rimando, 

Mas  este  em  verso,  vale  dez  em  prosa. 

Como  os  relógios  saõ  nossos  juizos 
Nenhum  vai  certo,  e  todos  crêm  no  próprio.  10 

No  vate  engenho  genuino  lie  raro: 
He  mais  raro  entre  os  criticos  o  gosto. 
Huns  e  outros  do  céo,  precizaò  luses; 
Criticos  nascem,  bem  como  os  poetas. 


84 

Let  such  teach  others  who  themselves  excel,  15 

And  censure  freely  who  have  written  well. 
Authors  are  partial  to  their  wit,  'tis  true, 
Eut  are  not  ciitics  to  their  judgment  too? 

Yet  if  we  look  more  closely,  \ve  shall  fiud 
Most  have  the  seeds  of  judgment  in  their  mind:     20 
Nature  affords  at  least  a  glimmViug  light; 
The  lines  though  touch'd  but  faintly  are  drawn  right : 
But  as  the  slightest  sketcb,  if  jitéfty  trac'd, 
Is  by  ill-colouring  but  the  more  disgrac'd, 
So  by  false  learning  is  good  sense  defac'd :  25 

Some  are  bevvilder'd  in  the  maze  of  schools/ 
And  some  made  coxcombs  N  ature  meant  but  fools. 
Tn  search  of  wit  these  lose  their  common  sense 
And  theu  turn  critics  in  tbeir  own  defence: 
Each  burns  alike  who  can  or  cannot  write,  30 

Or  v ith  a  rival's  or  an  eunuch's  spite. 
Ali  fools  have  still  an  itching  to  deride, 
And  fain  would  be  upon  the  laughing  side. 


8.) 

Os  excellentes  só,  outros  ensinem : 
E  sò  quem  bem  compõe,  livre  censure. 

Authores  parciais  do  próprio  génio 
Pode  haver ;  he  verdade,  mas  he  menos 
Parcial  do  que  opina,  quem  crilica: 

Se  de  perto  observar-mos,  acharemos  20 

Que  da  critica  o  germe,  n'alma  existe, 
Certo  Clarão  dispende  a  naturesa ; 
Linhas  ligeiras  traça,  mas  direitas 
Esboço' ténue  porem  bem  traçado 
Que  se  esperdiça  mal  iliuniinado.  25 

Falso  saber,  bom  senso  desfigura 
No  laberinto  das  escolas  quantos 
Desvairando  se  perdem  !  quantos  outros 
Que  a  naturesa  fes  tolos  somente 
Presumindo  de  si  mais  asnos  ficao?  30 

Em  busca  do  saber  a  rezaò  perdem, 
E  por  disculpa  em  críticos,  se  tornaò. 

Igual  fogo  os  agita  os  inceudea 
Ou  possa?,  ou  naò  possaõ,  sempre  escrevem 


86 

If  MsBvius  scribble  in  Apollb's  spite, 

There  are  who  judge  still  worse  than  he  can  write.  35 

Some  have  at  first  for  wits,  then  poets,  past, 
Turu'd  critics  next,  and  prov'd  plain  fools  at  last. 
Some  neither  can  for  wits  nor  critics  pass, 
As  heavy  mules  are  neither  horse  nor  ass. 
Tliose  half-learn'd  witliugs,  num'rous  in  our  isle,    40 
As  ha]f-form'd  insects  on  the  banks  of  Nile ; 
Unfinish'd  things,  one  knows  not  what  to  call, 
Their  geueration 's  so  equivocai; 
To  tell  them  would  a  hundred  tongues  require, 
Or  one  vain  \vit's,  tbat  might  a  hundred  tire.  45 

But  you  who  seek  to  give  and  merit  fame, 
And  justly  bear  a  Critic's  noble  name, 
Be  sure  yourself  and  your  own  reach  to  know, 
Hovv  far  your  genius,  taste,  and  learning  go; 
Launch  not  beyond  your  depth,  but  be  discreet,     50 
Aud  mark  that  point  where  sense  and  dulness  meet. 


87 

Co  a  raiva  de  hum  rival,  oa  cõ  ciúme  35 

De  hum  custodio  das  bellas  do  serralho. 
Tem  comichão  d^scamecêr  os  tolos; 
De  estar  da  parte  de  quem  ri;  ou  ladra. 

Se  Mevio  escreve  contra  o  jus  d'Apollo 
Ha  quem  julgue,  peor,  do  que  elle  escreve.  40 

Alguns  antes  de  serem  vates,  forao 
Por  homens,  de  juizo  reputados, 
Deraõ-se  á  critica,  e  asnos  ser,  provarão. 

Como  as  mulas,  nem  asnos  nem  cavàllos 
Outros  nao  saõ  sensatos,  nem  censores.  45 

Esses  pedantes,  semi  sábios,  praga 
Que  em  cardumes  a  bafaô  nossas  ilhas ; 
Quais  nas  margens  do  nilo  esses  insectos 
Que  encontramos  informes  incompletos 
De  equivoca  estructura.     Ninguém  sabe  50 

Que  nome  dar  a  tantas  meias  coisas : 
Nomealas;  requer  humas  cem  linguas: 
Mas  a  de  hum  tolo,  háde  estafar  cem  homens 

Oh  vòs  que  buscairs  dar,  merecer  fama, 


88 

Nature  to  ali  things  fix'd  the  limits  rit, 
And  wisely  curb'd  proud  mai/s  pretending  wit. 
As  ou  the  land  while  here  the  ocean  gains, 
In  other  parts  it  leaves  wide  sandy  plains;  55 

Thus  in  the  soul  while  memory  prevails, 
The  solid  powV  of  understauding  fails; 
Where  beams  of  warna  imagination  play, 
The  mernory's  soft  figures  melt  away. 
One  scieuce  only  will  one  genius  íit;  60 

So  vast  is  art,  so  narrow  human  wit: 
Not  only  bounded  to  peculiar  arts, 
But  oft'  in  these  confiVd  to  single  parts. 
Like  kings  we  lose  the  conquests  gaind  before, 
By  vain  ambition  still  to  make  them  more:  65 


89 

Alcançar  de  censor  o  nobre  nome  oò 

3 

Avistai  os  lemites;  athe  donde 

O  génio,  o  gosto,  e  saber  vosso  chega. 

Naõ  vos  lanceis  alem;  sede  prudentes: 

Fixai  bem  esse  ponto,  em  que  s'encontraõ 

Senso  e  tolice,  transgredindo  a  meta.  60 

As  coisas  tem  lemites  próprios,  todas; 
Com  os  quais  sabiamente  a  naturesa 
Quebra  a  esperteza  van  do  prezumido. 

Bem  como  em  terias  onde  o  mar  ganhando 
Deixa  areais  estéreis  n'outras  charcos  6j 

N'alma,  adonde  a  memoria  predomina 
O  poder  do  intellecto  desfalece. 

Da  memoria  as  espécies  brandas  fogem 
Se  a  fantasia  cálida  vaguea. 

Huma  sciencia,  pede  hum  génio  inteiro  70 

Taõ  vasta  he  arte,  e  curta  a  mente  humana 
Limitado  naõ  só  a  certas  artes 
Mas  nessas  mesmas,  só  capaz  de  partes. 
Perdemos,  como  os  reis,  essas  conquistas 

N 


90 

Each  might  his  sevYal  province  weiTcommand, 
Would  ail  but  stoop  to  what  they  understand. 

First  follovv  Nature,  and  your  judgment  frame 
By  her  just  standard,  w  hich  is  still  the  same  : 
Unerring  nature!  still  diviuely  briglit,  70 

One  clear,  unchang'd,  and  universal  light, 
Life,  force,  and  beauty,  must  to  all  impart, 
At  once  the  source,  and  end,  and  test,  of  art. 
Art  from  that  fund  each  just  supply  provides, 
Works  witbout  show,  and  without  pomp  presides:  75 
Tn  some  fair  body  tinis  th'  informing  soul 
Wiih  spirits  feeds,  and  vigour  fills  the  whole; 
Each  motion  guides,  and  ev'ry  nerve  sustai ns, 
Itself  unseen,  but  in  th'  effects  remains. 
Some,  to  whom  Heav^i  in  vvit  lias  been  profuse,    80 
Want  as  much  more  to  turn  it  to  its  use; 
For  wit  and  judgnient  ofteu  are  at  strife, 
Thougli  meant  each  otber's  aid,  like  man  and  wife. 


91 

Que  fizeraò  vaidosos,  só  guiados  75 

Pella  van  ambição  de  fazer  muitas. 

Manda  bem  cada  qual  sua  provinda 
Se  se  accommoda  áquillo  só,  que  intende 

Pellos  marcos,  que  poz  a  naturesa 

Formai  vo880juiso,  segui  esta;  80 

He  sempre  a  mesma,  certa  invariável, 

Com  luz  universal  em  tudo  brilha, 

Vida,  força,  e  belesa  nos  reparte 

Que  saò  origem,  fim,  e  prova  d'arte. 

Esta  só,  deste  fundo  se  alimenta  £j 

Perzide  às  obras  simples,  e  singelas. 

Assim  n'hum  corpo  béllo  huma  alma  sabia 

Nutre  d'espirito  e  vi^or  o  todo, 

Sustenta  o  nervo,  guia  os  movimentos 

Naò  se  vê,  nos  efteitos  se  percebe.  00 

Alguns  aquém  o  ceó,  deu  muito  engeuho 
Tanto  mais  devem  consultalo  atentos, 

O  juiso  e  a  rezaò  as  vezes  brigão 

intentando  ajudar-se;  as.sim  duputao 


92 

'Tis  more  to  guide  than  spur  the  Muse's  steed, 
Restrain  his  fury,  than  provoke  his  speed :  85 

The  winged  courser,  like  a  gen'rous  horse, 
Shows  most  true  mettle  when  vou  check  his  course. 
Those  Rules  of  old,  discover'd,  not  devis'd, 
Are  Nature  still,  but  Nature  methodiz'd ; 
Nature,  like  liberty,  is  but  restrain'd  90 

By  the  same  laws  which  first  herself  ordain'd. 

Hear  hovv  learn'd  Greece  her  useful  rules  indites, 
When  to  repress  and  when  indulge  our  flights : 
High  on  Parnassus'  top  her  sons  she  show'd, 
And  pointed  out  those  arduous  paths  they  trod ;     95 
Held  from  afar,  aloft,  th'  immortal  prize, 
And  urg'd  the  rest  by  equal  steps  to  rise. 
Just  precepts  thus  from  great  examples  giv'n, 
She  drew  from  them  what  they  deriv'd  from  Heav'n. 


93 

Hum  marido,  e  molher,  se  ambos  governaõ.  95 

Nao  quer  esporas  o  cavallo  alado 
A  rédea  basta,  e  quando  a  musa  corre 
Contenha  a  fúria,  mas  provoque  a  pressa. 
Pégaso  qual  ginete  generozo 
Mais  brio  mostra,  se  o  reprime  o  freio.  100 

S'dò  legou,  descobrio  a  antiguidade 
Essas  regras  que  estão  na  naturesa. 
Saõ  natureza,  o  methodo  a  restringe 
Bem  como  se  restringe  a  liberdade, 
Co  as  mesmas  leys,  que  a  liberdade  cria.  105 

Observai  como  a  sabia  Grécia  indica 
As  suas  úteis  regras;  como,  e  quando 
Reprimir,  animar,  se  deve  o  vòo. 

Do  tope  do  Parnaso  aos  olhos  mostra 
As  difficeis  veredas  que  trilharão.  1 10 

Co's  prémios  imortais  do  alto  acena 
Força  a  subir  esses  degraus,  qinni  tome : 
Tira  preceitos  só  de  exemplos  grandes 
E  delles  colhe,  o  que  elles  do  ceó  colhem. 


94 

The  geinous  critic  fann'd  the  poet's  fire,  100 

And  taught  the  world  vvith  reason  to  admire. 

Theii  Criticism  the  Muse's  handmaid  prov'd, 

To  dress  her  chaims,  and  make  her  more  belov'd  ; 

But  following  vvits  from  that  imentiou  síray'd; 

Who  could  notwin  the  mistress  \voo'd  themaid;  105 

Against  the  poets  their  own  arms  they  turn'd, 

Sure  to  hate  most  the  meu  from  whom  they  learn'd. 

So  modern  'pothecaries,  taught  the  art 

By  doctors'  bills  to  play  the  doctor's  part, 

Bold  in  the  practice  of  mistaken  rules,  1  10 

Prescribe,  apply,  and  call  their  masters  fools. 

Some  ou  the  leaves  of  aucient  authors  prey ; 

Nor  time  nor  moths  e'er  spoiFd  so  much  as  they: 

Some  dryly  plain,  vvithout  Invention's  aid, 

Write  dull  receipts  how  poems  may  be  made;       115 


95 

O  generoso  critico,  ao  poeta  1  \õ 

Somente  abana  o  fogo;  ao  mundo  eiisiim 
A  louvar  com  rezaò,  o  que  he  louvável 
Serve  a  critica  á  musa  de  creada 
Que  a  veste,  adorna  faz  parcer  mais  bella. 
Mas  se  desta  intenção  alguém  se  aparta, 
Se  corteja  a  creada,  e  deixa  a  dama ; 
Se  as  armas  virão  só  contra  os  poetas, 
Aborrecendo  assim  quem  os  ensina, 
Saõ  como  os  boticários,  que  estudando 
A  sciencia,  que  tem,  pellas  receitas 
O  papel  de  doutores  reprezentaõ; 
Atrevidos  na  pratica  dos  erros 
Receitaô,  mataõ  e  dizem  mal  dos  mestres. 
Alguns,  tasquinhaò,  roem  folhas  velhas 
Nem  o  tempo,  nem  traç  a  destrõe  tanto. 
Privados  duivençaò,  na  insulsa  forma 
De  planos  pecos,  outros,  nos  fabi  k 
Receitas  tolas  de  compor  poemas. 
De  fofa  erudição,  fazendo  alarde 


96 

These  leave  the  sense  their  learning  to  display, 
And  those  explain  the  meaning  quite  away. 

You  then  whose  judgment  the  right  course  vvoulef- 
stecr, 
Know  weli  each  Ancients  proper  character; 
His  fable,  subject,  scope  in  ev'ry  pnge;  120 

Religion,  country,  genius  of  his  age : 
Without  all  these  at  once  before  your  eyes, 
Cavil  you  may,  but  never  criticise. 
Be  Homer's  works  your  study  and  delight, 
Read  them  by  day,  and  meditate  by  night;  125 

Thence  formyour  judgment,  thenceyourmaxims  bring, 
And  trace  the  Muses  upward  to  their  spring. 
Still  with  itself  compar'd  tíis  text  peruse; 
And  let  your  comment  be  the  Mantuan  Muse. 

Wbfcii  firstyoung  Maro  in  his  boundless  mind   130 
A  nork  t'  outlast  immortal  Rome  desigud, 


97 

Põe  de  parte  o  sentido,  quando  explicao  135 

Ou  de  tal  modo  explicao,  que  este  foge. 

Vos  cujo  entendimento  bem  navega 
Iulgai  bem  dos  antigos  o  caracter 
Em  cada  folha  discerni  com  gosto 
A  fabula  o  assumpto,  e  fim  preposto.  140 

Religião,  paiz,  génio  da  idade, 
Sem  ter  nisto  nTium  tempo  os  olhos  fictos 
Invectivar  podeis;  criticar  nunca. 

Vosso  estudo,  e  deleite  as  obras  sejaò 
Do  vate  Homero,  do  parnaso  gloria  145 

Ledeo  de  dia,  á  noite  meditaio; 
Por  elle  modelai  vosso  juiso, 
Tirai  máximas  delle,  que  vos  levem 
Até  a  origem  da  castalia  fonte, 

Lede,  relede  o  texto,  comparaio  \J{j 

Comsigo  mesmo,  e  logo  depois  seja 
A  mantuana  musa  seu  comménto. 

Quando  na  mente  imménsa  o  moço  Maro 
Primeiro  dezignou  obra  taò  rara 

O 


... 

Perhaps  he  seem'd  above  the  critic's  law, 

And  but  from  Nature's  fountains  scornM  to  draw : 

But  when  t*  examine  evVy  part  he  came, 

Nature  and  Homer  were,  he  found,  the  same.      135 

Conviuc'd,  amaz'd,  he  checks  the  bold  design 

And  rules  as  strict  his  labour'd  work  confine, 

As  \í  the  Stagirite  o'erlook'd  each  line. 

Éí 

Learn  hence  from  ancient  mies  ajust  esteem; 

To  copy  Nature  is  to  copy  them.  140 

Some  beauties  yet  no  precepts  can  declare, 
For  there's  a  happiness  as  well  as  care. 
Music  resembles  poetry;  in  each 
Are  nameless  graces  which  no  methods  teach, 
And  which  a  master-hand  alone  can  reach.  145 


09 

Que  havia  durar  mais,  que  a  immortál  Roma        155 

Parecia  talvez  que  despresaudo 

Da  critica  os  preceitos  ;  só  queria 

As  fontes  esgotar  da  natureza: 

Mas  depois  quando  vio,  parte  por  parte 

O  que  tinha  composto,  e  a  gentileza  l60 

Vio,  que  era  o  mesmo,  Homero  e  natureza. 

Convencido;  o  desígnio  audaz  reprime 

Estrictamente  às  regras  .se  conforma 

E  a  trabalhoza  empreza  continua 

Bem  como  se  prezeute  o  Estagirita  165 

Atténto  prezedisse  a  cada  linha 

Ajusta  estima  das  antigas  regras 
D'aqui  se  aprenda  natureza,  imita 
Só  quem  as  segue,  quem  imita  Homero. 

Bellesas  ha  que  as  regras  naò  declaiaò,  17U 

Que  nascem  da  ventura,  e  de  cuidado. 
Musica  e  poesia  se  assemelhaò  ; 
Graças  sem  nome  e  sem  lições  tem  ambas 
Que  só  atinge  maõ  de  mestre,  às  vezes. 


100 

If,  where  the  rules  not  far  enough  extend, 

(Since  j  ules  were  made  but  to  promote  their  end), 

Such  lucky  licence  answer  to  the  full 

Th'  intent  pi  opos'd,  that  licence  is  a  rule. 

Thus  Pegasus,  a  nearer  vvay  to  take,  150 

May  boldly  deviate  from  the  common  track. 

From  vulgar  bounds  with  brave  disorder  part, 

Aud  snatch  a  grace  beyond  the  reach  of  art, 

Which,  without  passing  through  the  judgment,  gains 

The  heart,  and  all  its  end  at  once  attains.  155 

In  prospects  thus  some  objects  please  our  eyes, 

Which  out  of  Nature's  common  order  rise, 

The  shapeless  rock,  or  hanging  precipice. 

Great  wits  sometimes  may  gloriously  offend, 

And  rise  to  faults  true  critics  dare  not  mend.        160 

But  tbough  the  Ancients  thus  their  rules  invade, 

(As  kings  dispense  with  laws  themselves  have  made), 

Modems,  beware!  or  if  you  must  offend 

Against  the  precept,  ne'er  trausgress  its  end; 


101 

Se  onde  as  regras  naõ  chegaô  quanto  basta         175 
(Pois  saõ  methodo  só  de  encher  assumptos) 
Huma  Diz  licença  corresponde, 
Ao  intento ;  entaõ  hé  regra  a  licença. 
Pégaso  assim  para  encurtar  caminho 
Foge  atrevido  da  trilhada  estrada  1  -  0 

Do  limite  vulgar  audaz  se  affasta 
E  ganha  graça  além  do  alcance  d'arte; 
A  qual  sem  respeitar  censuras  vence 
Os  corações;  e  chega  ao  fim  de  hum  salto. 

Fora  da  ordem  natural  das  coizaá  ]  -j 

Algumas  ha  de  que  o  prospecto  agrada ; 
Informes  rochas,  precipicios,  grutas ; 
Grandes  génios,   também  erraõ  com  gloria 
Fazem  erros  que  a  critica  respeita. 
Mas  se  os  antigos  às  leys  próprias  faltaõ 
Como  reis,  que  revogaõ  leys,  que  fazem; 
Vos  modernos,  sentido!   se  he  preciso 
Peccàr  contra  o  preceito,  seu  rim  sempre 
Vos  esteja  presente,  em  transgredindo : 


102 

Let  it  be  seldom,  and  compelPd  by  need;  165 

And  have,  at  least,  tbeir  precedent  to  plead. 
The  eritic  else  proceeds  vvithout  remorse; 
Seizes  your  fame,  and  puts  his  laws  ia  force. 

I  knovv  there  are,  to  vvhoae  presumptuous  thoughts 
Those  freer  beauties,  ev'n  in  them,  seem  faults.     170 
Some  figures  monstrous  and  mis-shap'd  appear, 
Consider'd  singly,  or  beheld  too  near; 
Which,  but  proportion'd  to  their  light  or  place, 
Due  distance  reconciles  to  form  and  grace. 
A  prudent  chief  not  always  musf  display  175 

His  pow'rs  in  equal  ranks,  and  fair  array, 
13ut  with  th'  occasion  and  the  place  comply, 

Conceal  his  force,  nay  seem  sometimes  to  fly. 

Tliose  oft'  are  stratagems  which  errors  seem ; 

Nor  is  it  Homer  nods,  but  \ve  that  dream.  1 80 

Still  green  with  bays  each  ancient  altar  stands 

Above  the  reach  of  sacrilegious  hands, 


105 

Sejaò  raras  as  vezes,  e  torçadas;  19* 

Justificadas  por  exemplos  grandes 

De  outra  sorte,  sem  freio,  sem  remorso 

Da  vossa  fama,  a  critica  se  apossa 

Prosegue,  e  suas  leys  com  força  allega. 

Bem  sei  que  alguns  com  prezumida  iuea  'l')Q 

Esses  rasgos  sublimes  erros  chamao ; 
Que  as  figuras  ao  perto,  ou  destacadas 
Monstros  e  informes  coisas  lhe  parecem 
As  quais  no  seu  lugar  e  luz  expostas 
A  devida  distancia  concilia 
Cò  a  forma  bélla,  graças,  e  harmonia. 
Nem  sempre  dezenvolve  hum  chefe  sábio 
Igualmente  nos  rangs  poder  e  arreio 

Com  seu  tempo,  e  lugar  os  proporciona 

Estratagemas  ha  que  erros  parecem  £10 

Nao  cabeceia  Homero,  nós  sonhamos 

De  louros  verdes  iuda  ornados  vemos 

Os  antigos  aliares;  naõ  llic  chega 

N   cm  Saç/ilfg  .  mao,  nem  vuiáz  too 


104 

Secure  from  flaraes,  from  envy's  fiercer  rage, 

Destructive  war,  and  all-involving  age. 

See  from  each  clime  the  learn'd  their  incense  britig  [ 

Hear,  in  all  tongues  consenting  paeans  ring!  186 

In  praise  so  just  let  ev'ry  voice  be  joinM, 

And  fill  the  general  ehorus  of  raankind. 

Hail,  Bards  triumphaiit!  born  in  happier  days ; 

Immortal  heirs  of  universal  praise !  190 

Whose  honours  with  increase  of  ages  grow, 

As  streams  roll  down,  enlarging  as  they  flow ; 

Nations  unborn  your  mighty  name  shall  sound, 

And  vvorlds  applaud  that  must  not  yet  be  found! 

O  may  some  spark  of  your  celestial  fire,  195 

The  last,  the  meanest,  of  your  sons  inspire, 

(That  on  weak  wings,  from  far,  pursues  your  flights ; 

Glows  while  he  reads,  but  trembles  as  he  writes), 


10.5 

Da  cólera  feroz,  da  inveja  izentos,  ^15 

Da  guerra  e  tempo  gastador,  seguros. 

Vede  os  sábios,  que  vem  trazendo  incensos 

De  cada  clima  os  paeans  aprovadores, 

Atentos  escutai,  nas  línguas  varias, 

Ressoe  em  cada  vós  taõ  justo  aplauso,  280 

E  do  género  humano  o  coro  se  'encha. 

Salve  !  oh  bardas  sublimes  triumphantes 
Que  nascesteis  em  dias  mais  ditosos. 
Herdeiros  immortais  do  geral  premio 
Cujas  honras  co'  tempo  vaS  crescendo  Wô 

Como  cngrossaõ  torrentes,  que  se  augmentaò 
A  medida  que  as  terras  vaõ  lavando. 
Vossos  nomes  potentes,  haò-de  ouvilos 
Nações  que  haò-de  nascer ;  haòde  aplaudilos 
Mundos  que  inda  naò  foraÒ  descobertos.  CJO 

Desse  fogo  celeste  huma  faisca 
Venha  inflammar  a  débil,  triste  Alcipe, 
Que  adejando  de  longe  quer  seguira 
Q-ie  ai  de  quando  vos  lè,  treme  sVscreve 

P 


106 

To  teach  vain  wits  a  science  little  known, 

T"  admire  superior  sense,  and  doubt  their  own!    200 

Of  ali  the  causes  wliich  conspire  to  blind 
Man's  erring  judgrnent,  and  misguide  the  mind, 

What  the  weak  head  with  strongest  bias  rules, 

Is  pride,  the  never-failing  vice  of  fools. 

Whatever  Nature  lias  in  worth  deny'd,  205 

She  gives  in  large  recrnits  of  needful  pride : 
For  as  in  bodies,  thus  in  souls,  we  find 
What  wants  iti  blood  and  spirits,  swelFd  with  wind: 
Pride,  where  wit  fails,  steps  in  to  our  defence, 
And  fills  up  ali  the  mighty  void  of  sense:  210 

U  once  right  reason  drives  that  cloud  away, 
Truth  breaks  upon  us  with  resistless  day. 
Trust  not  yourself ;  but  your  defects  to  know, 
Make  use  of  ev'ry  friend — and  ev'ry  foe. 


107 

Tara  ensinar  a  os  génios  prezumidos 

A  sciencia,  que  pouco  se  conhece 

D'apreciar  talentos  supriores. 

E  com  modéstia  duvidar  dos  próprios. 

Das  causas  todas,  que  a  cegar,  conspiraõ 

A  mente  errante,  e  a  desgarrar  o  senso;  2V) 

A  que  domina  mais  cabeças  fracas 

He  soberba,  dos  tollos  vicio  certo. 

Quanto  em  mérito  nega  a  natureza 

Suprem  remendos  de  precizo  orgulho. 

Assim  como  nos  carpos,  n'alma  achamos  246 

Que  onde  espirito  e  sangue  falta,  ha  vento. 

Trepa  a  soberba  onde  o  juiso  he  nullo. 

E  se  deffeude  enchendo  os  vaõs  que  encontra: 

Se  a  íesao  chega  e  este  vapor  dissipa, 

Sobre  nós  desce,  e  rompe  o  dia  claro  <200 

Da  verdade,  com  luz  irresestivel. 

Naõ  nos  fiemos  de  nòs  mesmos,  quando 

Quisermos  descobrir  nossos  detYeitos 

Consultemos  amigos,  e  eoimigos, 


108 

A  little  learning  is  a  daug'rous  thing ;  215 

Drink  deep,  or  taste  not  the  Pierian  spring: 
There  shallow  draughts  intoxicate  the  braiu, 
And  drinking  largely  sobers  us  again. 
Fir'd  at  first  sight  with  \vhat  the  Muse  imparts, 
lu  fearless  youtb  we  tenipt  the  heights  of  arís,     220 
While,  from  the  bounded  levei  of  our  mind, 
Short  vievvs  we  take,  nor  see  lhe  lengths  behind; 
But  more  advanc'd,  behold  with  strange  surprise, 
Kew  distant  scenes  of  endless  science  rise! 
So  pleas'd  at  first  the  to\\'ring  Alps  we  try,  0.9.5 

Mount  o'er  the  vales,  and  seem  to  tread  the  skyí 
Th'  eternal  snows  appear  already  past, 
And  the  liist  clouds  and  mountains  seem  the  last: 
But,  those  attain'd,  we  tremble  to  survey 
The  growing  labours  of  the  lengthened  way;        230 
Th'  increasing  prospect  tires  our  waudVing  eyes, 
Hills  peep  o'er  hills,  and  Alps  on  Alps  arise! 


109 

Saciaivos  na  fonte  das  camenas  2\>5 

Ou  naõ  proveis  das  suas  aguas  nunca 
O  miolo  embriagaõ  curtos  goles, 
Só  bebendo  a  fartar  a  rezaõ  toma. 

Sem  medo,  a  mocidade  os  altos  d'arte 
Tenta  logo,  que  a  musa  a  favorece 
Quando  ao  nivel  de  hum  animo  pequeno 

Nem  vê  ao  longe,  nem  o  que  atraz  tica. 

Se  se  adianta  mais,  com  pasmo  admira 

Novas  scenas  distantes  sem  limite 

Que  a  sciencia  levanta,  e  vai  mo>tranuo.  C(>5 

Assim  primeiro,  cometendo  alegres 

Os  turriticos  alpes,  nós  cuidamos 

Pizár  o  céo,  por  ter  vencido  bum  valle, 

Que  a  neve  eterna  ja  findou,  e  as  nuvem*. 

Montes  primeiros  últimos  julgamos  '270 

Porem  clu  gando  lá  susto  nos  ganha 

Cresce  o  trabalho  estendesse  o  caminho, 

Os  vagabundos  olhos  naò  descançaò 
No  crescido  prospecto  que  aprezenta 


110 

A  perfect  judge  will  read  each  work  of  wit 
AVith  the  same  spirit  that  its  author  writ; 
Survej  the  whole,  nor  seek  slight  faults  to  find     235 
Where  Nature  moves,  and  i  apture  v\  ai  ms  the  miud ; 
Nor  lose  for  that  malignant  dull  delight, 
The  gen'rous  pleasure  to  be  charrrTd  vvith  vvit. 
But  in  such  lays  as  íieither  ebb  uor  flow, 
Correctly  cold  and  regularly  low,  240 

That  shunning  faults,  one  quiet  tenor  keep; 

We  cannot  blame  indeed — but  we  may  sleep. 
In  vvit,  as  nature,  what  affects  our  hearts 

Is  not  th'  exactness  of  peculiar  parts: 

Tis  not  a  lip,  or  eye,  we  beauty  call,  24 ò 

But  the  joint  force  and  full  result  of  ali. 


111 

Oiteiro  sobre  oiteiro,  alpe  sobre  alpe 

Hum  perfeito  juis,  hade  ler  sempre 
Aquellas  obras,  que  produs  o  engenho 
No  espirito  do  mesmo  author  que  escreve : 
As  faltas  naõ  lhe  explora,  o  todo  observa ; 
E  por  esse  maligno,  e  vaõ  deleite 
Que  os  reparos  inspira ;  nunca  troca 
O  prazer  generoso  d'encantar-se 
Co'  as  bellas  piodueçoes  do  engenho  alheio. 

Mas  em  versos,  sem  fluxo  nem  refluxo 
Correctamente  frios,  sempre  baxos,  C90 

Que  evitao  erros,  sem  tropeço  murchaõ, 
Naõ  ha  que  criticar.  .  .  .  Dormir  podemos. 

O  que  em  juízo,  como  em  natureza 
Mais  toca  os  corações  sorprende  as  almas, 
Naõ  consi-te  na  exactidão  das  partes.  295 

Naõ  chamamos  belleza  a  hum  beiço  a  hum  olhos ; 
A  força  junta,  o  pleno  resultítdo 
Das  partes  todas  constitue  o  béllo. 

Assim  (mando  hum  zimbório  bem  lançado 


112 

Th us  when  \ve  view  some  well-proportion'd  dome, 
(The  world's  just  wonder,  and  even  thine,  O  Rome  !) 
No  single  parts  unequally  surprise, 
Ali  comes  united  to  th'  admiring  eyes  ;  250 

No  monstrous  height,  or  breadth,  or  length,  appear ; 
The  whole  at  once  is  bold  and  regular. 

Whoever  thinks  a  faultless  piece  to  see, 
Thinks  what  ne'er  was,  nor  is,  nor  e'er  shall  be. 
In  ev'ry  work  regard  the  \vriter's  end,  255 

Since  none  can  compass  more  than  they  intend ; 
And  if  the  means  be  jnst,  the  conduct  true, 
Applause,  in  spite  of  trivial  faults,  is  due. 
As  men  of  breeding,  sometimes  men  of  wit, 
T'  avoid  great  errors,  must  the  less  commit;         260 
Neglect  the  rules  each  verbal  critic  lays, 
For  not  to  knovv  some  trifles  is  a  praise. 
Most  critics,  fond  of  some  subservient  art, 
Still  make  the  whole  depend  upon  a  part: 


11.3 

(Do  mundo  admiração,  e  tua  oh  Roma!)  JOO 

Vemos  com  pasmo,  parte  alguma  vemos 

O  todo  unido,  apanbaõ  nossos  olhos: 

A  monstruosa  altura,  o  comprimento 

Nem  a  larga  extençaõ,  nos  fere  a  vista ; 

O  todo  regular  e  audaz,  nos  pasma.  <J  3 

Quem  sem  deffeitos  huma,  peça  espera 

Quer  impossíveis;  sem  peusár  pretende 

O  que  naõ  há,  nem  haverá  nem  houve. 

O  que  naõ  s'íntentou,  ninguém  o  exija. 

Se  os  meios  íoraõ  bons,  se  he  saõ,  correcto  310. 

Mesmo  apezár  de  trtviais  defYeitos 

He-lhe  devido  aplauso,  aplauso  alcance. 

Homens  d'  engenho  e  os  homens  bem  creados 
Para  evitar  as  vezes,  grandes  é: tos 
Precizaõ  cometer  erros  pequenos,  315 

Despresár  regras,  que  em  pafcvras  mordem, 
Ignorar  bagatcllás,  taõ  bem  vale. 

Críticos  ha,  que  escravos  (falgom  'arte 
Fnzem,  dependa  o  todo  de  huma  parte. 

Q 


114 
They  talk  of  principies,  but  notions  prize,  265 

And  all  to  one  lov'd  folly  saerifice. 

Once  on  a  time,  La  Mancha's  Knigbt,  they  say, 
A  certain  bard  encount'ring  on  the  way, 
DiscomVd  in  terms  as  just,  with  looks  as  sage, 
As  e'er  could  Dennis,  of  the  Grecian  stage;         270 
Concluding  all  were  despVate  sots  and  fools, 
Who  durst  depart  from  Aristotle's  rules. 
Our  author,  happy  in  a  judge  so  nice, 
Produc'd  his  play,  and  begg'd  the  Knight's  advice; 
Made  him  observe  the  subject  and  the  plot,         273 
The  manners,  passions,  unities;  what  not  ? 
All  which,  exact  to  rule,  were  brought  abont, 
Were  but  a  combat  in  the  lists  left  out. 
"  VVhat!  leave  the  combatout?"  exclaims  the  Knisftt, 
"  Yes,  or  we  must  renounce  the  Stagirite;*'  280 


115 

Tem  so  noções,  mas  fallaõ  de  princípios  320 

E  á  inania  que  tem,  tudo  submetem. 

Consta,  que  hum  dia  o  Paladin  da  Mancha 
No  caminho,  encontrou  certo  Poeta, 
Com  o  qual  discorreu  com  tanto  aceito, 
Disse  em  termos  correctos  tais  sentenças  3L2ô 

Sobre  o  Grego  theatro,  quais  naõ  disse 
Deniz  jamais :  (conhecedor  das  artes) 
Deu  por  necios  e  loucos  quem  se  atreve 
A  fugir  dos  preceitos  de  Aristotles 
O  nosso  author  feliz  com  tal  censura  330 

Com  juis  tao  perito;  ao  cavalheiro 
Huma  comedia  aprezeutou  contente 
E  pedio-lhe  submisso  seu  coucelho. 
Fas  que  o  entreixo,  e  que  o  assumpto  observe, 
As  maneiras,  paixões  as  unidades  33o 

Tudo,  n'huma  palavra  e  mais  se  houvera 
Mas,  faltava  hua  justa  nesta  peça; 

Que  escuto  !  exclama  em  tuna  o  cavalheiro, 
Por  que  suprime  a  justa  :  .  .  .  Sim  suprimo 


116 

4íNot  so,  by  Heav'n!"  he  answers  in  a  ragc; 
"  Knights,  squires,  and  steeds,  must  cnter  ou  tbe  stage." 
"  So  vast  a  tLrong  the  slage  can  ne'er  contain." — 
"  Then  build  a  new,  or  act  it  in  a  plaiu." 

Thus  critics  of  less  judgment  than  caprice,       285 
Curious  not  knowing,  not  exact  but  nice, 
Form  short  ideas ;  and  offend  in  arts 
(As  most  in  manners)  by  a  love  to  parts. 

Some  to  Conceit  alone  their  taste  confine, 
And  glittVing  thoughts  struck  out  at  evVy  Iine;     290 
Pleas'd  w  ith  a  work  where  nothing's  just  or  rit, 
One  glaring  chãos  and  wild  heap  of  wit. 
Poets  like  painters,  thus,  unskiH*d  to  trace 
The  naked  nature,  and  the  living  grace, 


Ill 

Ou  renuncio  as  leys  do  stagerita.—  340 

Enraivecido  gritta  D.  Quixote. 

"  Naõ  deve  ser  assiui;  os  ceos  atesto. 

"  Os  cavalheiros,  pagens,  urcos,  lanças 

"  Devem  enírár  na  scêna,  sem  falência." — 

Porem  naõ  cabem  lá  — Outra  construa, 

Reprezente  n'hum  campo,  ou  bem  na  rua. 

Assim  julgaõ  censores  que  possuem 
Menos  bom  senso,  que  capricho  e  teima. 
Curiosos  e  ignaros,  pouco  exactos 
Mas  melindrosos,  simples  dilectantes  òòO 

Formão  curtas  ideas,  a  arte  offendeni 
Tanto  em  maneiras,  que  em  paixão  por  partes. 

Quantos  ha,  que  s'esmeraõ  nos  conceitos 
Em  cada  verso  marchetado,  estalão, 
Lustrosos  pensamentos;  aprezentaõ  355 

Nas  obras  em  que  nada  he  próprio  he  justo, 
Hum  cabos  bello,  e  de  juízo,  aos  montes. 
Poetas  quais  pintores,  pouco  destros 
Em  dt  1  >u\ar  correcta  m 


118 

With  gold  and  jewels  cover  ev'ry  part,  295 

And  hide  with  ornaments  their  want  of  art. 

True  wit  is  Nature  to  advantage  dress'd, 

What  oft'  was  thought,  but  ueer  so  well  express'd ; 

Something,  whose  truth  convinc'd  at  sight  we  tind, 

That  gives  us  back  the  image  of  our  mind.  300 

As  shades  more  sweetly  recommend  the  light, 

So  modest  plainness  sets  off  sprightly  wit. 

For  works  may  have  more  wit  than  does  'em  good, 

As  bodies  perish  thro'  excess  of  blood. 

Others  for  Language  all  their  care  express,       S05 
And  value  books,  as  women  meu,  for  dress : 
Their  praise  is  still,  the  style  is  excellent ; 
The  sense  tliey  humbly  take  upon  coutent. 
Words  are  like  ieaves ;  and  where  they  most  abound, 
^luch  fruit  of  sense  beneath  is  rarely  found:        310 


119 

A  natureza  uúa,  e  as  graças  viva* 

Com  doiradura  e  jóias  cobrem  tudo. 

Os  adornos  escondem  falta  d'arte : 

Verdadeiro  juizo,  he  natureza 

Com  garbo,  e  com  ventagem  revestida 

O  que  todos  pensarão,  ninguém  dice.  363 

O  quer  que  seja,  que  convence  logo 

E  reproduz  a  imagem,  que  está  nalma. 

Bem  como  a  luz  ressalta  mais  co'  a  sombi^ 
Co  a  singela  modéstia,  brilha  ingenho. 
Excesso  de  juizo  as  obras  perde  370 

Como  excesso  de  sangue  os  corpos  mata. 

Outros  na  lingua  põe  todo  o  cuidado; 
Estimao  livros  com  >  estimao  damas 
Pello  traje  somente;  ■  s  -ueccm  a  ai  na. 

Gabão  assim;  o  es'*'     '»e  muito  bello 
Tem  dito:  e  nada  coid  \c  no  sentido 
Seja  qual  lor,  com  elie  iC  contentaõ 
Saô  come  as  folhas,  as  palavras,  m  litas 
Dos  frutos  da  rez^ò,  indiv.; 


120 

False  eloquence,  like  the  prismatic  glass, 

Its  gaudy  colours  spreads  on  ev'ry  place; 

The  face  of  Nature  we  no  more  survey, 

Ali  glares  alike,  without  distinction  gay ; 

But  true  expression,  like  th'  unchanging  sun,         315 

Glears  and  improves  whate*er  it  shines  upon; 

It  gilds  ali  objects,  but  it  alters  none. 

Expression  is  the  dress  of  thought,  and  still 

Appears  more  decent  as  more  suitable, 

A  vile  conceit  in  pompous  words  express'd,  320 

Is  like  a  clovvn  in  regai  purple  dress'd : 

For  diffVent  styles  with  diffrent  subjects  sort, 

As  several  garbs  with  country,  town,  and  court. 

Some  by  old  words  to  fame  have  made  pretence, 

Ancients  in  phrase,  meie  Modems  in  their  sense: 

Such  labour'd  nothings  in  so  strange  a  style  326 

Amaze  th'  unlearn'd  and  make  the  learned  smile. 

Unlucky  as  Fungoso  in  the  play, 

These  sparks  with  awkward  vanity  display 

What  the  fine  gentleman  wore  yesterday;  330 


121 

He  como  o  prisma,  huma  eloquência  falsa,       3J  ) 
Que  os  seus  matizes,  sobre  tudo  espalha 
Da  natureza  a  face,  então,  naõ  vemos 
Tudo  brilha,  he  matiz,  confuso,  e  alegre. 

Mas  ajusta  expressão,  qual  sol  constante 
Melhora,  aclara  aquillo  que  alumia 
Doira  os  objectos  sem  que  altere  a  essência. 
He  das  ideas  traje,  a  expressão  bella 
Quanto  mais  própria,  tanto  he  mais  decente 
Mas  hum  conceito  vil,  dito  com  pompa 
He  hum  Pelam  de  purpura  vestido: 
Pois  o  estylo  varea  em  cada  assumpto, 
Traje  ha  de  corte,  campo,  e  de  cidade. 

Com  termos  velhos  muitos  querem  faina 
Em  phrase  antigos,  moços  em  bom  senso 
Taõ  trabalhoso  nada,  estranho  esl\lo 
Pasma  ignorantes,  mas  faz  rir  os  sábios. 
Infeliz  qual  peralta  na  comedia 
Que  dezestrado,  e  presumido  intenta 
Imitár-os  casquilhos  bem  fallantes, 

R 


122 

And  but  so  mimic  ancient  wits  at  best, 

As  apes  our  grandsires,  in  their  doublets  drest. 

In  words,  as  fashions,  the  same  rule  will  hold; 

Alike  fantastic,  if  too  new,  or  old : 

Be  not  the  first  by  whom  the  new  are  try'd,         355 

Nor  yet  the  last  to  lay  the  old  aside. 

But  most  by  Numbers  judge  a  poet's  song, 
And  smooth  or  rough,  with  theni,  is  right  or  wrong: 
In  the  bright  Muse  tho'  tliousand  cliarms  conspire, 
Her  voice  is  ali  tbese  tuneful  fools  admire;  340 

Wlio  hannt  Parnassus  but  to  please  their  ear, 
Not  mend  their  minds;  as  some  to  church  repair, 
Not  for  tlie  doctrine,  but  the  music  there. 
These  cqual  syllaMés  alone  require, 
Though  oft'  the  ear  the  open  vouels  tire;  345 

AVhile  expletives  their  feeble  aid  do  join, 
And  ten  low  vvords  ofY  creep  in  one  duli  line: 


123 

Aremedár  antigos  nfeste  tempo  400 

Fallar  como  fallavaõ,  vale  o  mesmo 

Que  tomar  por  modelo  as  valias  (Tabas 

Com  que  nossos  avós,  faziaõ  secia. 

Em  termos  como  em  moda  a  regra  he  certa. 

Fantástica  igual  mente,  se  sao  novos  40õ 

Guardaivos  de  uzár  cedo,  e  se  saò  velhos, 

Lltnno  naõ  sejais,  para  excluilos. 

O  canto  numeroso  he  quanto  basta, 

Para  muitos  julgarem  de  hum  poeia, 

Suave  ou  rude,  he  mau  ou  bom,  com  estes.  410 

A  musa  pode  ter  mil  attractivos 

O  melomaue,  a  vóz,  he  que  lhe  admira. 

Quem  pello  ouvido,  o  Pindo,  só  frequenta 
Xaò  aproveita,  he  como  esses  devotos 
Que  as  igi«ja>  frequentao,  pois  lhe  agrada  410 

A  musica  iuda  mais  do  que  a  doutrina. 

Nau  querem  mais,  que  sillaba^  medula.*, 
liem  que  abertas  vogais  cauçem,  o  ouvido, 
Quando  expressivas  nhum  mau  verso  Bjudaò 


124 

While  they  ring  round  the  same  unvary'd  chimes, 

With  sure  returns  of  still  expected  rhymes; 

Where'er  you  find  "  the  cooling  western  breeze,"  350 

In  tbe  next  line,  it  "  whispers  thro'  the  trees:" 

If  chrystal  streams  "  vvith  pleasing  murmurs  creep," 

The  reader's  threaten'd  (not  in  vain)  with  "  sleep;" 

Then  at  the  last  and  only  couplet  fraught 

With  some  unmeaning  thing  they  call  a  thought,  355 

A  needless  Alexandrine  ends  the  song, 

That,like  a  woundtdsnake,  drags  its  slovv  lengthalong. 

Leave  such  to  tune  their  own  dull  rhymes,  and  know 

What's  roundly  smoolb,  or  languishingly  slow ; 

And  praise  the  easy  vigou r  of  a  line,  360 

Where  Denham's  strength,  and  WahWssweetness  join. 

True  ease  in  writing  comes  from  art,  not  chance, 

As  those  move  easiest  who  bave  learn'd  to  dance. 

'Tis  not  enough  no  harshness  gives  offence, 

The  sound  must  seem  an  echo  to  lhe  sense.  365 


125 

A  trepar  nelle,  dez  palavras  baxas.  4*20 

Em  quanto  o  carrilhão  sabido  toca 

Vem  sem  falência  a  rima  ja  sabida. 

Onde  acharmos  que  o  Zephiro  sóspira, 

No  que  segue,  entre  as  folhas  se  relha. 

Se  vai  sereno  o  rio,  que  abandono 

Arrisco  o  meu  leitor  a  ganhar  sono 

Mas  enfim  huma  strophe  he  necessária, 

Suprem  com  certo  insulso  ditto  a  idea 

Que  hum  escusado  Alexandrino  acaba 

E  qual  ferida  cobra  ali  s'estira.  430 

Deichalos  entoar  insulsas  rimas 
E  saibamos  o  que  he  suave  ou  frouxo 
O  vigor  fácil  de  hum  bom  verso  amemos, 
Que  á  doçura  de  Waller,  junta  a  for^a 
Com  que  Deuhani  faz  resoar  a  lyra 

Vem  d'arte  o  escrever  bem  naò  vem  do  acá- 
Quem  aprende  a  dançar,  melhor  K  move, 
Naò  basta  a  o  verso,  ser  brando,  innoceute 
O  som  deve  ser  eco  do  sentido 


126 

Soft  is  the  strain  when  Zephyr  gcntly  blovvs, 
And  the  smooth  stream  in  smoother  numbers  flovvs; 
But  when  loud  surges  lat>h  the  sounding  shore, 
The  hoarse,  rough  verse  should  like  the  torrent  roar. 
When  Ajax  strives  some  rock's  vast  weight  to  throw, 
The  line  too  labours,  and  the  words  move  slovv :  37 1 
Is  ot  so,  when  swiu  Camilla  scoirrs  the  plain, 
Flies  oer  ih'  uiibending  corn,  and  skims  along  the 


main. 


Hear  how  Timotheus'  vary'd  lays  snrprise, 
And  bid  alternate  passions  fali  and  rise!  375 

While  at  each  change,  the  son  of  Lybian  Jove 
Novv  buins  with  glory,  and  then  melts  with  love: 
Now  his  íierce  eyes  with  sparkling  fury  glovv, 
Novv  sighs  steal  out,  and  tears  begin  to  flow : 


127 

He  doce  o  verso,  em  que  o  favonio  sopra  440 

Plácido  corre,  o  numero  cadente, 

Que  o  murmúrio  imita  da  corrente. 

Mas  quando  a  vaga  altiva  a  praia  bate, 

Affoito,  impetuoso  s'incapelle, 

Como  a  torrente  rouca  o  verso  atroe.  445 

Se  com  pezadas  rochas  Ajax  tenta 
Com  violência  atirar,  forceje  o  verso, 
Os  termos  com  trabalho  vaò  nascendo. 
Naõ  assim,  se  as  espigas  se  naõ  vergão 

Se  as  espumas  do  mar  se  naò  desfazem  450 

Quando  Camilla  rápida  passeia. 

A  Thimoteo  escutai  nos  sons  variados 

Como  acende  as  paxoes,  como  as  acalma  ! 

Cada  modulação  cria  hum  prodigio. 

Do  Libio  Jove  o  filho,  n'aJma  sente 

Ora  hum  ardor  de  gloria,  que  o  devora 

Ora  de  amor  hum  fogo  que  o  derrete. 

Sae1  '!e  seus  olhos  dardos  furiosos 

Rompem  seu  peito,  os  ais  seu  pranto  corre; 


J28 

Persians  and  Greeks  like  turns  of  Nature  found,  3S0 

And  the  world's  victor  stood  subdu'd  by  sound ! 

The  po\v'r  of  music  all  our  hearts  allow, 

Atid  vvhat  Timotheus  was,  is  Dryden  now. 

Àvoid  extremes;  and  shun  the  fault  of  such, 

Who  still  are  pleas'd  too  little  or  too  much;         385 

At  ev'ry  trifle  scorn  to  take  offence, 

That  always  shows  great  pride,  or  little  sense  : 

Those  heads,  as  stomachs,  are  not  sure  the  best, 

Which  nauseate  ali,  and  nothing  can  digest. 

Yet  let  not  each  gay  turn  thy  rapture  move ;  390 

For  fools  admire,  but  men  of  sense  approve : 

As  things  seem  large  which  we  through  mists  descry. 

Dnlness  is  ever  apt  to  magnify. 

Some  foreign  writers,  some  our  own  despise ; 
The  Ancients  only,  or  the  Moderns  prize.  395 


129 

Gregos  e  Persas  concilia  o  canto,  460 

Ao  vencedor  do  mundo  o  som  subjuga. 

E  o  que  Thimoteo  foy  Driden  imita 

Fora  Bocage  que  ultrajou  fortuna. 

Extremos  evitai,  e  as  faltas  desses 

A  quem  as  coizas  muito,  ou  nada  agradao,  4dò 

Picar-se  com  qualquer  legeiro  escarueo 

Mostra  muita  soberba,  e  pouco  senso. 

Cabeças,  como  estômagos,  nao  prestaõ 
Se  nao  digerem  nada,  se  os  enjoa 
Quanto  comem  por  bom  ou  mau  que  seja,  470 

Naõ  he  justo  taõ  bem  que  extazes  cause 
Qualquer  dito  jocoso,  qual  quer  phrase. 
Tolos  admirao,  mas  o  bom  senso  aprova. 
Entre  névoas,  avultaõ  os  objectos; 
A  ignorância  engrandece  sempre  as  coizas.  47.*» 

Authores  estrangeiros  se  reprovaõ 
E  certos  homens  só  daõ  preço  aos  próprios, 
Gostaõ  de  antigos  seu?,  ou  seus  modernos; 
Fazem  do  engenho  monopólio  e  fingem 

S 


130 

Tbus  wit,  like  faith,  by  each  man  is  apply'd 

To  one  small  sect,  and  ali  are  damn'd  besidc. 

Meanly  they  seek  the  blessing  to  confine, 

And  force  that  sun  but  on  a  part  to  shine, 

Which  not  alone  the  soutbern  wit  sublimes,  40O 

But  ripens  spirits  in  cold  northern  climes; 

Which  from  the  first  has  shone  ou  ages  past, 

Enligbts  the  present,  and  shall  warm  the  last; 

Tho'  each  may  feel  increases  and  decays, 

And  see  now  clearer  and  novv  darker  days.  405 

Kegard  not  then  if  wit  be  old  or  new, 

But  blame  the  false,  and  value  still  the  true. 

Some  ne'er  advance  a  judgment  of  their  own, 
But  catch  die  spreading  notion  of  the  Town ; 
They  reason  and  conclude  by  precedent,  410 

And  own  stale  nonsense  which  they  ue'er  invent. 
Some  judge  of  autliors'  names,  not  works,  and  then 
Nor  praise  nor  blame  the  writings,  but  the  men. 
Of  ali  the  servile  herd,  the  worst  is  he 
That  in  proud  dulness  joins  with  qualitv.  415 


131 

Que  o  inundo  em  trevas  ifiguorancia  dorme. 
O  sol  mesmo,  a  brilhar  forçaò  n  num  canto, 
Sol,  que  naÕ  so  no  sul  sublima  engenhos, 
Mas  que  os  génios,  no  frio  norte  aquesce. 

G  que  brilhou  na  idade  ja  passada, 
Luz  na  prezente,  hade  enrlamar  vindoiros.  435 

Bem  que  humas  vezes  cresça  outras  descaia 
Que  hajaõ  mais  claros,  mais  escuros  dias. 

Pouco  importa  juízo  velho  ou  novo 
O  falso  censurai,  louvai  o  justo. 

Quantos  ha  que  uaõ  tem  juiso  próprio! 
Julgaõ,  concluem  pello  antecedente 
Cò  huma  asneira  sediça,  sem  que  aomenos 
Gozem  do  privilegio  dmventala. 

Pello  nome  do  auth>r  m  .idem; 

Naõ  pellas  obras  naò,  e  neste  cazo  4<jó 

N ao  julgaõ  dos  escritos,  mas  áo$  hum. 

D'este  rebanho  vil  «»  mais  abjecto 
Hé  quem  lota  tolice  une  á  nobieza 
E  critico  constante  u*hum  palácio 


132 

A  constant  critic  at  the  great  man's  board, 

To  fetch  and  carry  nonsense  for  my  Lord. 

What  woful  stuíF  this  madrigal  would  be 

In  some  staiVd  hackney  sonnetteer,  or  me ! 

But  let  a  lord  once  own  the  bappy  lines,  420 

Hovv  the  wit  brightens!  how  the  style  refines! 

Before  his  sacred  name  flies  ev'ry  fault, 

And  each  exalted  stanza  teems  with  thought! 

The  vulgar  thus  through  imitation  err; 
As  oft  the  learn'd  by  being  singular ;  425 

So  much  they  scom  the  crowd,  that  if  the  throng 
By  chance  go  right,  they  purposely  go  wrong : 
So  schismatics  the  plain  believers  quit, 
And  are  but  damnM  for  having  too  much  wit. 
Some  praise  at  morning  what  they  blame  at  night ; 
But  alvvays  think  the  last  opinion  right.  431 

A  Muse  by  these  is  like  a  mistress  us'd, 
This  hour  she's  idoliz'd,  the  next  abus'd 


133 

Traz  e  leva  inepcias  de  hum  ministro.  500 

Que  tal  pessa  seria  huma  cantiga 

Se  hum  poeta  rafado  qual  me  sinto 

A  tivesse  composto  ?     Se  hum  valido 

Hum  presidente  acazo  condescende 

A  dar  por  sua  a  quadra,  que  prodígio!  505 

Que  raro  engenho!   que  suave  estylo! 

Ante  o  nume  sagrado  os  erros  fogem 

E  na  strophe  sublime  ideas  fervem. 

Erra  o  vulgo  imitando :  o  sábio,  sendo 
Em  tudo  singular,  tao  bem  tropeça;  510 

Tanto  despreza  a  multidão,  que  às  vezes 
Vai  às  avessas,  se  ella  vai  direita. 
Scismatico,  dos  crentes  simples,  zomba 
E  á  força  de  juizo  se  condena. 

Apologistas  e  censores  outros  5)õ 

De  manháa  louvao,  o  que  a  tarde  accusao; 
Sempre  a  ultima  idea  lhe  tem  conta 
Trataõ  a  musa  como  a  incauta  dama 
Que  ora  idolatraò,  e  que  depois  insultaÕ. 


134 

While  their  weak  heads,  like  towns  imfortify'd, 

Twixt  scnse  and  nonsensc  daily  change  their  side. 

Ask  them  the  cause;  they're  wiser  still,  tbey  say; 

And  ;>till  to  morrovv's  wiser  than  tc-day. 

We  think  our  fathers  fools;  so  wise  we  grow; 

Our  wiser  sons,  do  doubt,  will  think  us  so. 

Once  school-divines  this  zealous  isie  o'erspread;  440 

Wlio  knew  most  sentences,  "svas  deepest  read : 

Faith,  gospel,  all  seem'd  made  to  be  disputed, 

And  none  bad  sense  enough  lo  be  confuted  : 

Scotists  and  Thoinists  now  in  peace  remaiu, 

Amidst  tbeir  kindred  cobwebs  in  Duck  Lane.      445 

If  faitb  itself  bas  difFrent  dresses  worn, 

What  wonder  modes  in  wit  sbould  take  their  turn? 


135 

Entre  senso  e  tolice  vacilantes  óCO 

Estas  cabeça;»  dcbeis  se  parecem 

Co'  as  villas,  que  nao  saô  fortificadas 

Que  a  frente  e  lado,  a  cada  attaque  mudaõ. 

Perguntai-lhe  o  porque  ?  melhor  acordo 
Dizem  que  tem,  e  que  progressos  fazem.  525 

Tanto  cresce  o  saber  em  nós,  que  tolos 
Julgamos  nossos  pais;  filhos  mais  sábios 
Assim  os  julgarão,  quaudo  crescerem. 
Ja  Theologos  mil,  qual  praga  hum  dia 
Estas  ilhas  cobrio;  e  foraò  lidos  530 

Comtanto  mais  ardor,  quanto  as  sentenças 
Foraõ  mais  numerosa'?,  mais  audases. 
Parecia,  que  a  fé,  que  os  evangelios 
Só  para  disputalos  existiaõ. 
Agora  em  paz  Tomistas  Scotistas 
Jazem  mortos  nas  loges  dos  livreiros 
Entre  as  teas  d'arranha,  traça  ou  ratos. 

Se  a  fé  mesma  trajou  roupas  da  moda 
Que  tem,  que  a  moda  no  juizo  impcie: 


J  ^u 


136 

Oft',  leaving  what  is  natural  and  fit, 
The  current  folly  proves  the  ready  wit ; 
And  authors  think  their  reputation  safe  450 

Which  lives  as  long  as  fools  are  pleasM  to  laugh. 
Some  valuing  those  of  their  own  side  or  miud, 
Still  make  themselves  the  measure  of  mankind : 
Fondly  \ve  think  we  honour  merit  then, 
When  we  but  praise  ourselves  in  other  men.         455 
Pai  ties  in  wit  attend  on  those  of  state, 
And  public  faction  doubles  private  hate. 
Pride,  mal  ice,  folly,  against  Dryden  rose 
In  various  shapes  of  parsons,  critics,  beaus ; 
But  sense  surviv'd  when  merry  jests  vvere  past;    460 
For  rising  merit  will  buoy  up  at  last. 
Might  he  return,  and  bless  once  more  our  eyes, 

New  Blackmores  and  new  Milbourns  must  arise: 

• 

Nay  should  great  Homer  lift  his  awful  bead, 
Zoilus  again  would  start  up  from  the  dead.  465 


W 

Pondo  departe  quauto  he  próprio  e  justo,  04O 

Mostrando  engenho  prompto  em  frioleiras 
Authores  tais  suppoem  salvos  seus  nomes 
Sua  reputação  segura  em  quanto 
Agrada  aos  asnos,  celebrar  seus  chistes 

Ha  gentes  partidistas,  que  só  amaõ 
Quem  concorda  com  elles;  de  si  fazem 
Para  o  género  humano,  huma  medida 
A  quelles  onde  a  nós,  nelles  achamos 
Aprovação,  ternura,  apreço  damos. 
Estes  partidos  sao  como  os  do  estado, 
Facçaò  publica  dobra  ódios  secretos* 

Contra  Driden  desdém,  malícia,  orgulho 
Em  formas  varias,  loucas  se  levanta, 
Mas  o  bomsenso  suprevive  ás  chuffas 
Ah  se  voltasse  Driden!  se  beniguo 
Aos  nossos  olhos  inda  se  mostrasse, 
Nasceriao  Blakmores  e  MHboumes, 
E  se  de  Homero  a  frente  respeitável 
Levantada  do  tumulo,  se  visse; 

1 


138 

Envy  wiíl  Merit,  as  its  shade,  pursue ; 
But,  likc  a  shadow,  proves  the  substance  true; 
For  envy 'd  wit,  like  Sol  eclips'd,  makes  known 
Th'  opposing  body's  grossness,  not  its  own. 
When  first  that  sim  too  pow'rful  beams  displays,  470 
It  draws  up  vapours  which  obscure  its  rays ; 
But  ev'n  those  clouds  at  last  adorn  its  way, 
Reflect  new  glories,  and  augment  the  day. 
Be  thou  the  first  true  merit  to  befriend; 
His  praise  is  lost,  who  stays  till  ali  commend.      475 
Short  is  the  date,  alas !  of  modern  rhymes, 
And  'tis  but  just  to  let  them  live  betimes. 
No  longer  now  that  golden  age  appears, 
When  patriarch  wits  surviv'd  a  thousand  years : 
Now  length  of  fame  (our  second  life)  is  lost,       480 
j^ud  bare  threescore  is  ali  ev'n  that  can  boast: 


139 

DVutre  os  mortos  surgirão  Zoilos  novos;  õdO 

Seguira  a  inveja  o  mérito  qual  sombra 
Provando  da  substancia  a  realidade. 

Génio  invejado,  he  sol  quando  s'ec!ipsa; 
O  corpo  que  se  opõe  mostra  quaò"  pouco 
A  sua  própria  furma,  iguala  estoutra.  56ò 

Quando  esse  sol  potente  os  raios  darda, 
Vapor  atrahe,  que  os  raios  obscurece 
Porem  nuvens,  o  seu  caminho  adornao 
Reflectem  nova  gloria,  a  luz  se  augmenta. 

Favorecei  o  mérito  depres>a,  370 

Sede  oprhneiro,  pouco  vale  o  aplauso 
Quando  he  forçado  pella  voz  de  todos. 
E  justiça  somente,  o  exige  cedo: 
Pois  tem  curto  durar,  modernas  rimas. 

Ay  de  nos!  ja  fugio  a  idade  d'oiro.  07  j 

Então,  dos  Patriarcas  o  talento 
Mil  annos  gloriosos  excedia* 
Da  fama,  que  he  segunda  vida  nossa 
O  comprimento  he  nullo;  douze  lustros 


Í40 

Our  sons  their  falhers'  failing  language  setíj 

And  sueh  as  Chaucer  is,  sball  Dryden  be. 

So  when  lhe  faithful  pencil  has  design'd 

Some  bright  idea  of  the  master's  mind,  433 

Where  a  new  world  leaps  out  at  his  command, 

And  ready  Nature  waits  upon  his  haud; 

When  the  ripe  colours  soften  and  unite, 

And  sweetly  rnelt  into  just  shade  and  light; 

When  mellowing  years  their  full  perfection  give, 

And  each  boid  figure  just  begins  to  live,  4J-H 

The  treachVous  colours  the  fair  art  betray, 

And  ali  the  bright  creation  fades  away ! 

Unhappy  wit,  like  most  mistaken  things, 
Atones  not  for  that  envy  which  it  briugs.  49<5 

In  youth  alone  its  empty  praise  we  boast, 
But  soon  the  short-liv'd  vanity  is  lost; 
Like  some  fair  flowV  the  early  spring  supplies, 
That  gaily  blocms,  but  ev'n  in  blooming  dies. 


141 

He  quando  muito,  o  que  ostentar  podemos.  580 

Nossos  filhos,  dos  pais  notaõ  as  falias 
Da  lir.gua  decadente;  qual  foi  Chaucer 
Será  Driden,  eos  vates,  que  hoje  escrevem. 

Assim,  quando  o  fiel  piucel  exprime, 
D'alma  de  mestre,  huma  brilhante  idea,  585 

De  que  ressalta  hum  novo  mundo,  e  surge 
Quando  elle  ordena,  prompta  a  natureza. 
Ladonde  as  cores  brandas  bem  unidas 
Se  fundem  propriamente  em  luz  e  sombra, 
E  que  os  annos  maduros  a  completaõ,  590 

Que  a  figura  a  viver  começa  ouzada, 
Traidoras  cores  a  bella  arte  offendem 
E  a  producçaõ  brilhante  murcha  e  morre. 

Como  outras  coizas  vaans,  triste  juizo! 
Tu  naõ  pagas,  a  inveja  que  te  segue ; 
Quando  moços,  teus  prémios  vaõs  nos  tentaò 
Mas  a  breve  vaidade  cedo  acaba, 
Como  a  flor  bella,  que  florece  em  mávo 
E  rloreceudo  mesmo,  em  pompa  morre. 


- 


142 

Whal  is  Uiis  wit  which  must  our  cares  employ?    500 
The  oWner's  wife  that  other  men  ewjoy; 
Then  most  our  trouble  still  when  most  admir'd, 
And  still  the  more  we  give,  the  more  requir'd; 
Whose  fame  with  pains  \ve  gain,  but  lose  with  ease, 
Sure  some  to  vex,  but  never  ali  to  pltase ;  505 

'Tis  what  the  vicious  fear,  the  virtuous  shuu; 
By  fools  'tis  hated,  and  by  kuaves  intdone ! 
If  wit  so  much  from  ign'rance  undergo, 
Ah  let  not  learning  too  commence  its  foe ! 
Of  old,  those  met  rewards  who  could  excel,         510 
And  such  were  prais'd  who  but  endeavour'd  well : 
Tho'  triumphs  were  to  gen'rals  only  due, 
Crowns  were  reserv'd  to  grace  the  soldiers  too. 
Now,  they  who  reach  Parnassus'  lofty  crown 
Employ  their  pains  to  spurn  some  others  dowu;  515 
And  while  self-love  each  jealous  m  riter  rules, 
Contending  wits  become  the  sport  of  fools  ; 


143 

Que  hes  pois  juizo,  que  taô  caro  custas?  600 

Hes  origem  de  pena  ao  proprietário 

E  somente  de  ti  herdeiros  gozao. 

Mais  nos  perturbas,  quanto  mais  te  admirao 

Tua  fama  se  alcança  com  trabalho, 

E  facilmente  a  perde  quem  a  alcança.  605 

Dom,  que  a  poucos  agrada,  e  amuitos  cança; 

Que  o  vicio  teme,  e  que  a  virtude  evita, 

O  estúpido  aborrece,  e  que  o  mau,  perde. 

Se  os  de  juizo  aos  néscios  tanto  aturaõ 
Naõ  venhao  nao  os  sábios  perseguilos.  610 

Dos  antigos  só  prémios  conseguiao 
Os  d'excelencia  grande;  bem  que  louvem 
Outros,  que  só  tentarão  conseguila. 

Se  aos  generais  se  devem  os  triumphos 
Crõas  houve  taò  bem  para  os  soldados. 
Hoje,  os  que  ganhão,  o  alto  do  Parnaso 
Trabalhão  em  fazer  cahir  os  outros, 
E  em  quanto  a  prezumpçaò  conduz  a  penni* 
De  hum  invejoso  autbor,  estas  d: 


144 

But  still  the  worst  vvith  most  regret  commend, 

For  each  ill  author  is  as  bad  a  friend. 

To  vvhat  base  ends,  and  by  what  abject  ^ays        520 

Are  mortais  urg'd  thro'  sacred  lust  of  praise! 

Ah. !  ne'er  so  dire  a  thirst  of  glory  boast, 

Nor  in  the  critic  let  the  man  be  lost. 

Good  nature  and  good  sense  must  ever  join  9 

To  err  is  buman  ;  to  forgive,  divine.  525 

But  if  in  noble  minds  some  dregs  remain, 
Not  yet  purg'd  off,  of  spleen  and  sour  disdain, 
Discharge  tbat  rage  011  more  provoking  crimes, 
JNor  fear  a  deartb  in  these  flagitious  times. 
No  pardon  vile  obscenity  should  find,  530 

Tho'  wit  and  art  conspire  to  moveyour  mind; 
But  dulness  witb  obscenity  must  prove 
As  sbameful  sure  as  impotence  in  love. 
In  tbe  fat  age  of  pleasure,  wealtb,  and  ease, 
Sprang  tbe  rank  weed,  and  thriv'd  with  large  increase; 


145 

Dos  sábios;  vem  a  ser  rizo  dos  néscios:  620 

O  peor  he,  (com  magoa,  e  dòr  o  aponto) 
Que  hum  author  mau,  he  sempre  mau  amigo. 
Com  que  lins  baxos!  com  que  abjectos  meios 
Insta  aos  mortais,  o  louco  amor  da  fama! 

Nunca  tal  cede,  de  huma  gloria  errada  69.5 

Na  critica  mergulhe  homens  sensatos. 

Bomsenso,  e  coração  unidos  andem. 

Errar  he  de  homens,  perdoar,  divino. 
Porem  se  algumas  fezes  de  fastio 

Ou  de  rancor  contem  o  animo  nobre,  630 

Em  crimes  mais  picantes  descarregue, 

O  seu  furor ;  naõ  tema  que  lhe  falte- 

Em  taõ  perverso  tempo,  assumpto  vasto. 
Naõ  alcancem  perdão  obscenos  versos, 

Bem  que  nelles  conspire  arte  e  juízo  635 

A  seduzir  a  mente,  e  a  comover  tios. 

Alas  parvoíce  obscena  he  vergonhosa, 

Como  insultos,  que  amor  nojento  enfeita. 

No  secuio  nutrido  dos  prazeres 

u 


146 

When  love  was  all  an  easy  monarch's  care,  536 

Seldom  at  council,  never  in  a  vvar : 

Jilts  ruFd  the  state,  and  statesmen  farces  writ; 

Nay  wits  had  pensions,  and  young  lords  had  vvit ; 

The  fair  sat  panting  at  a  courtier's  ph»y,  540 

And  not  a  mask  went  unimproVd  away ; 

The  modest  fan  was  lifted  up  no  more, 

And  virgins  smil'd  at  wbat  they  blush'd  before* 

The  followiiig  liceuce  of  a  foreigu  reign 

Did  all  the  dregs  of  bold  Sociuus  drain ;  045 

Then  unbelieving  priests  refornVd  the  nalion, 

And  taught  more  pleasant  methods  of  salvation; 

Where  Heav'n's  free  subjects  might  their  rights  dispute, 

Lest  Godhimself  should  seem  too  absolute: 


147 

Da  riqueza,  do  commodo,  he  que  nasce  040 

Viçoso  joyo,  entre  elles  medra,  e  cresce 

Quando  hum  monarca,  todo  á  amor  sentrega 
Que  a  justiça,  o  concelho,  a  guerra  esquece, 
Regem  loucos  o  reino,  os  estadistas 
Compõe  comedias,  madrigais,  e  farças,  Ô45 

Naõ  só  casquilhos  tem  pensões  e  engenho, 
Mas  palpitando,  as  damas  no  theatro 
Do  libertino,  o  drama  impuro  admiraõ; 
A  mascara  sem  risco,  naõ  se  tira. 
O  leque  honesto  ja  naõ  cobre  o  rosto  650 

Virgens  riem  do  que  antes  as  corava. 

De  hum  reino  estranho  a  libertina  moda 
Secou  do  audaz  Socino,  as  fezes  todas. 
Hum  incrédulo  clero,  ao  depois  veio 
Reformar  a  naçaõ,  e  dar-lhe  a  norma 
De  salvarse  sem  custo,  alegremente. 

Muito  absoluto  Deus  lhe  parecera 
Se  os  vassalos  do  ceó,  naõ  discutissem 
Seus  suppóstos  direitos  livremente 


148 

Pulpits  their  sacred  satire  learn'd  to  spare,  550 

And  Vice  admir'd  to  find  a  flattVer  there ! 
Encourag'd  thus,  Wit's  Titans  brav  d  the  skies, 
And  the  press  groan'd  with  licens'd  blasphemies. 
These  monsters,  Critics !  with  your  darts  engage, 
Here  point  your  thunder,  and  exhaust  your  rage ! 
Yet  shun  their  fault,  v>ho,  scandalously  nice,         õòQ 
Will  needs  mistake  an  author  into  vice: 
Ali  seems  infected  that  th'  infected  spy, 
As  ali  looks  yellow  to  the  jaundic'd  eye. 

Learn  then  what  morais  critics  ought  to  show,  560 
For  'tis  but  a  half  a  judge's  task  to  know. 
Tis  not  enough,  taste,  judgment,  learning,  join; 
In  ali  you  speak,  let  truth  and  candour  shine; 
That  not  alone  what  to  your  sense  is  due 
AH  may  allow;  but  seek  your  friendship  too.       ô6ô 


149 

O  púlpito  aprendeu  a  por  limites  660 

As  satvras  sagradas;  nelle  acharão 

Com  pasmo,  os  vicios,  lizongeiro  amparo. 

Animados  assim;  titanios  geuios, 

Escalarão  os  ceos;  a  imprensa  geme 

Com  blasfémias  louvadas,  permeadas  665 

Destes  monstros  oh  critica  vingaivos. 
Exauri  vossas  iras,  vossos  dardos ; 
Lançai  vossos  trovões,  sobre  tais  Ímpios 
Mas  evitai  comtudo  nimio  scrup'lo 
Que  hum  necessário  vicio  encontra  em  tudo,        6?0 
Como  a  hetericia  vê;  tudo  amarêllo. 
Aprendei  qual  moral,  criticos  devem 
Ensinar;  pois  saber  he  só  metade 
Do  officio  de  juis;   naõ  he  bastante 
Unir  sciencia  ao  gosto,  arte  ao  juizo.  6*5 

Brilhe  a  candura  brilhe  a  sam  verdade 
Em  tudo  o  que  se  diz;  a  tim  que  todos 
A  rezaõ  vossa  dem  quanto  vos  devem, 
E  sollicitem  ser  taò  bem  amigos. 


150 

Be  silent  always,  when  you  doubt  your  sense, 
And  speak,  tho' sure,  with  seeming  diffidence: 
Some  positive,  persisting  f  ps  we  kuovv, 
Who  if  once  wrong,  will  needs  be  always  so; 
But  you,  with  pleasure  owo  your  errors  past,        570 
And  make  each  day  a  critique  on  the  last. 

Tis  not  enough  your  counsel  still  be  true, 
Blunt  truths  more  mischief  that  nice  falsehoods  do : 

Men  must  be  taught  as  if  you  taught  them  not, 

And  things  unknown  propos'd  as  things  forgot.     575 

Without  good-breeding,  truth  is  disapprovVJ ; 

That  only  makes  superior  sense  belov'd. 
Be  uiggards  of  advice  on  no  pretence, 

For  the  worst  avarice  is  that  of  sense. 

With  mean  complacence  ne'er  betray  your  trust,  580 

Nor  be  so  civil  as  to  prove  unjust. 

Fear  not  the  anger  of  the  wise  to  raise; 

Those  best  can  bear  reproof,  who  merit  praise. 


151 

Calai,  se  duvidais  do  próprio  senso ;  680 

Falai,  quando  estais  certos,  com  modéstia. 

Há  pedante  teimoso  e  pozitivo 

Que  se  huma  vez  errar  hade  errar  sempre 

Confessai  com  prazer  erros  passados. 

Criticai  cada  dia  o  precedente  68"> 

Falsidades  polidas,  menos  ferem 

As  mais  das  vezes,  que  ásperas  verdades. 

Homens  se  ensinaõ,  sem  saber,  que  aprendem 

O  que  ignoraõ,  supõe-se,  que  lhe  esquece. 

Sem  bom  modo,  a  verdade  dezagrada  Gyo 

E  só  bomsenso  fáz-que  seja  amada. 

Com  pretexto  nenliun  negueis  concelho ; 
A  peór  avareza  he  poupar  senso. 
Trahir  por  complacência  a  confiança, 
He  baixeza,  he  traição,  e  naõ  se  de.c 
AíHm  de  ser  polido  ser  injusto. 

Naõ  temais  acender  de  hum  sábio  as  iras 
A  correcção  severa  melhor  sofre 
Quem  mérito  possue,  quem  o  estima. 


152 
Twere  well  might  critics  still  this  freedom  take, 
But  Appius  reddens  at  each  vvord  you  speak,       585 
And  stares  tremendous,  with  a  threat'ning  eye, 
Like  some  íierce  tyrant  in  old  tapestry. 
Fear  most  to  tax  an  honourable  fool, 
Whose  right  it  is,  uncensur'd,  to  be  dull  : 
Such,  Vvithout  wit,  are  poets  when  they  please,     590 
As  without  learning  they  can  take  degrees. 
Leave  dangVous  truths  to  unsuccessful  satires, 
And  flattery  to  fulsonie  dedicators, 
Whom,  when  they  praise,  lhe  world  believes  no  more 
Than  when  they  promisa  to  give  scribbling  o'er.  ÕQ5 
'Tis  best  sometimes  your  censure  to  restrain, 
And  charitably  let  the  dull  be  vain; 
Your  silence  there  is  better  ihan  your  spite, 
For  who  can  rail  so  long  as  they  can  write? 


153 

Bom  fora  criticar  com  liberdade  700 

Mas  Appio  d'quai  vejo,  esbravejaudo 
Tisnado  pella  raiva,  em  que  se  acende. 
Os  espantados  olhos  em  mim  prega 
Com  fúrias  e  ameaços,  qual  gigante 
De  hum  pano  de  rás  velho.     Que  figura!  .  .  .     705 
Naõ  censureis  hum  louco  declarado 
De  que  o  jus,  he  ser  asmo  impunemente 
Há  mil  loucos  poetas,  por  que  querem ; 
Como  sem  lettras,  ha  muitos  doutores 
Deichai  pois  as  verdades  perigozas  710 

A  desditoza  satyra,  as  lizonjas 
Para  os  authores  das  dedicatórias. 

O  mundo  nada  crê,  no  que  elles  gabaò; 
Nem  tem  fé  nos  escritos  que  prometem 
Melhor  he  reprimir  qualquer  censura  J]q    ' 

E  deichar  por  esmola  aos  asnos  fumo. 
Vosso  silencio  então  vale  hum  despreze. 
E  quem  pode  igualar,  zombando,  o  muito 
Que  elles  podem  zurrar  nos  seus  escrito? ! 

\ 


134 

Still  humming  on  their  drowsy  course  they  keep, 

And  lash'd  so  long,  like  tops,  are  lash'd  asleep.    fiOI 

False  steps  but  help  them  to  renevv  their  race, 

As,  after  stumbling,  jades  will  mend  their  pace. 

What  crowds  of  these,  impenitently  bold, 

In  sounds  and  jingling  syllables  grown  old,  605 

Still  run  on  poets,  in  a  raging  vein, 

E'en  to  the  dregs  and  squeezings  of  the  brain, 

Straiu  out  the  last  dull  droppings  of  their  sense, 

And  rhyme  with  ali  the  rage  of  impotence! 

Such  shameless  bards  we  have ;  and  yet  'tis  true 
There  are  as  mad,  abandon'd  critics  too.  t)l  1 

The  bookful  blockhead  ignorantly  read, 
With  loads  of  leamed  lumber  in  his  head, 
With  bis  own  tongue  still  ediries  his  ears, 
And  ahvays  list'ning  to  himself  appears :  615 

All  books  he  reads.  and  all  he  reads  assails, 
From  Dryden's  Fables  down  to  Durfey's  Tales. 


15o 

Rosnando  vao  na  sonolenta  estrada  720 

Qual  pi:iõ  fustigado,  que  zunindo 
Com  tropeços  a  dança,  continua; 
E  como  as  róssas,  cai,  eo  passo  emenda. 
Quantos  destes  impenitentes  ouzuõ 
Envelhecer  ao  son  dos  consoantes,  725 

De  huma  indómita,  veia  perseguidos, 
Do  miolo  espremido,  o  sueco  tiraõ 
Té  ás  ultimas  pingas  da  tolice, 
E  rimaõ  co  furor  de  quem  naõ  pode. 

Bardas  tao  vergonhosos  inda  temos  730 

Mas  he  verdade  qu'  igualmente  doidos 
Criticos  miseráveis  nos  naõ  faltaõ. 
O  leitor  cabeçudo,  que  sem  fruto 
Traz  á  cabeça  carga  de  sciencia»: 
Co  a  própria  língua  seu  ouvido  encanta  735 

E  parece,  que  a  si  somente  escuta. 
Lê  tudo,  e  quanto  lê,  affoito  attaca 
Driden,  Pope,  Camões,  Ferreira,  Horatio, 
Matos,  Quita,  Malhão,  Medina,  e  Acúrcio. 


156 

With  him  most  authors  steal  their  works,  or  buy ; 

Garth  did  not  write  his  own  Dispensary, 

Name  a  new  play,  and  he's  the  poet's  friend ;       620 

Nay,  sho\v'd  his  faults — but  when  would  poets  mend  ? 

No  place  so  sacred  from  such  fops  iu  bai  r'd, 

Nor  is  PauFs  Church  more  safe  than  Paul's  Church- 

yard : 
Nay,  fly  to  altars,  ibere  they'11  talk  you  dead; 
For  fools  rush  in  where  angels  fear  to  tread.         6*25 
Distrustful  sense  with  modest  caution  speaks, 
It  still  looks  home,  and  short  excursions  makes; 
But  rattling  nonsense  in  full  vollies  breaks, 
And  never  shock'd,  and  never  turn'd  aside, 
Bursts  out,  resistless,  with  a  thundVing  tide.         630 

But  where's  the  man,  vho  counsel  can  bestow, 
Still  plea.s'd  to  teacb,  and  yet  not  proud  to  know ; 
Unbiass'd,  or  by  favour,  or  by  spite ; 
Jiot  dully  prepossess>'d;  nor  blindly  right: 


157 

Dis  que  sao  roubo,  ou  compra  seus  escritos  740 

E  os  diversos  authores  todos  mede 

Por  huma  vara;  assim  que  impressos  correm. 

Se  ha  drama  novo,  he  do  poeta  amigo, 

Mas  aponta-lhe  as  faltas;  que  remédio 

Podem  ter  tais  cabeças  tais  poetas:  ~^ 

Para  estes  nao  ha  lugar  sagrado 

Kaõ  vale  a  igreja,  nem  o  cimiteno 

Se  foges  para  o  altar  ahi  te  apanha 

E  á  força  de  falar  ali  te  mata. 

Loucos  se  atrevem  ao  que  respeitaõ  anjos.  150 

Timido  senso  falia  acautelado 

Entra  em  si,  e  nao  corre  atras  dos  outros. 

O  cascavel  dos  asuos  tine  ao  longe 

E  arraza  qual  borrasca  irresistível. 

Mas,  quem  pode  sem  custo  dar  concelho  755 

Que  ensina  bem,  e  sem  soberba  he  sábio, 

Quem  nao  cede  ao  favor,  nem  turba 

Que  sem  teima  ou  {.aixaò,  no  seu  dieta: 
Ben  que  sábio,  he  civil;  e  civil  sendo 


158 

Tho*  learn'd,  well-bred;  and  tho'  well-bred,  sincere; 
Modestly  bold,  aud  humanely  severe;  636 

Who  to  a  friend  his  faults  can  freely  show, 
And  gladly  praise  the  nierit  of  a  foe; 
Bless'd  with  a  taste  exact,  yet  unconhVd, 
A  knowledge  both  of  books  and  human-kind;      640 
GenVous  converse;  a  soul  exempt  from  pride; 
And  loves  to  praise,  with  reason  on  bis  side? 

Such  once  were  Critics;  such  the  happy  few 
Atbens  and  Rome  in  better  ages  knevv. 
The  mighty  Stagirite  firist  left  the  shore,  645 

Spread  ali  bis  sails,  and  durst  tbe  deeps  explore; 
He  steer'd  securely,  and  discover'd  far, 
Led  by  the  ligbt  of  the  Mseonian  star, 
Poets,  a  race  long  unconfm'd,  and  free, 
Still  fond  and  proud  of  savage  liberty,  650 

Receiv'd  his  laws;  and  stood  conviuc'd  'twas  fit, 
VVho  conquerM  Nature,  sbould  preside  o'er  wit. 


159 

He  sincero,  e  modestamente  affoito,  7fr> 

He  com  humanidade,  bem  severo, 

Livremente  ao  amigo,  os  erros  nota, 

Do  inimigo  com  gosto,  os  dons  aplaude. 

De  hum  tacto  exacto,  e  sem  limite  ornado 

Como  os  livros,  os  corações  conhece.  7Ô5 

Generoso  conversa;  e  sem  soberba 

Ama,  louvar  quando  a  rezaô  aprova. 

Tais  algum  dia  os  críticos  ja  forao, 
Tais  Athenas  e  Roma  os  vio  ditozas. 
O  grande  stagerita,  que  primeiro  7  7'» 

Deicha  a  praia,  e  largando  as  velas  todas 
Explorou  sem  temor  profundidades; 
Navegava  seguro,  conduzido 
Pella  maeonia  estrela,  e  vio  ao  longe. 
Poetas  raça  altiva,  raça  indócil,  77  J 

Que  a  liberdade  barbara  inda  amavaò, 
D'elle  as  leys  receberão,  justo  acharão 
Que  quem  poude  vencer  a  natureza 
Reger  podesse,  e  preziuir  a  o  engenho 


160 

Horace  still  charms  with  graceful  negligence, 
And  without  method  talks  us  into  sense  ; 
Will,  like  a  friend,  familiarly  convey  655 

The  truest  notions  in  the  easiest  way. 
He,  who  supreme  in  judgment,  as  in  wit, 
Might  boldly  censure  as  he  boldly  writ, 
Yet  judg'd  with  coolness,  tho'  he  sung  with  fire ; 
His  precepts  teach  but  what  his  vvorks  inspire.     660 
Our  Critics  take  a  contrary  extreme, 
They  judge  with  fury,  but  they  vvrite  with  phlegm; 
Nor  suffers  Horace  more  in  vvrong  translations 
By  vvits,  than  critics  in  as  wrong  cfuotations. 

See  Dionysius  Homero  thoughts  refine,  66ô 

And  call  new  beauties  forth  from  ev'ry  line! 

Fancy  and  art  in  gay  Petronius  please, 
The  scholar's  learning,  vvith  the  courtier's  ease. 


164 

Com  doce  negligencia,  nos  deleita  78O 

E  sem  methodo  Horatio  nos  ensina. 

Como  hum  amigo,  em  familiar  discurso, 

Pello  meio  mais  fácil  communica 

As  mais  puras  noções,  mais  verdadeiras 

Elle  supremo,  no  juiso  e  senso,  78J 

Que  affoito  escreve  e  censurar  pedia  ; 

Frio  critica,  bem  que  ardendo  cante. 

Seus  preceitos  correctos,  naõ  exigem 

Se  nao  quanto  em  seus  versos  nos  inspira. 

Seguem  contrario  extremo  outros  censores  ?yo 

Com  fúria  julgaõ,  mas  com  fleugma  escrevem  : 

E  Horatio  em  traducções  más,  tanto  soffre 

Quanto  em  criticas  más,  em  notas  loucas 

Como  Dionísio  apura"  os  pensamentos 

Do  vate  Homero!     Como  em  cada  regra  793 

Faz  resaltár  bellezas,  que  investiga ! 

Com  que  graça  Petronio  alegre  junta 

A  fantasia  e  gosto,  o  saber  vasto, 

O  fácil  tom  do  cortezaò  polido! 

Y 


162 

In  grave  Quintiliano  copious  work  we  find 
The  justest  rules  and  clearest  method  join'd.         670 
Thus  useful  arms  in  magazines  we  place, 
Ali  rang*d  in  order,  and  dispos'd  with  grace; 
But  less  to  please  the  eye  than  arm  the  hand7 
Still  fit  for  use,  and  ready  at  command. 
Thee,  bold  Longinus!  ali  the  Nine  inspire,  675 

And  bless  their  critic  with  a  poet's  fire : 
An  ardent  judge,  wh  o,  zealous  in  bis  trust, 
With  warmth  gives  sentence,  yet  is  always  just; 
Whose  own  example  strengthens  ali  his  laws, 
And  is  himself  that  great  sublifne  he  draws.         680 

Thus  long  succeeding  critics  justly  reign'd, 
Licence  repress'd?  and  useful  laws  ordain'd : 
Learning  and  Rome  alike  in  empire  grew, 
And  arts  still  follow'd  where  her  Eagíes  flew ; 


163 

No  extenso  livro  de  Quintilio  grave  804 

Achamos  os  preceitos  mais  exactos, 
Junto  ás  regras  mais  claras,  úteis  armas 
Que  em  deposito,  temos  arranjadas; 
E  dispostas  com  graça,  sempre  promtas 
Naõ  para  vaõ  recreio;  para  armar-nos  &  )i 

Quando  seja  precizo  pegar  d'ellas. 

Tu  Longino,  atrevido!  as  musas  todas 
Com  poético  fogo  te  dotarão ; 
Iuspirando-te  a  critica  sublime. 
Juis  ardente,  que  zelando,  a  empreza  810 

Com  calor  sentencea  e  sempre  he  justo 
Suas  leys  fortificaõ  seus  exemplos 
Elle  he  o  mesmo  sublime  que  descreve. 

Por  longo  tempo  assim,  e  com  justiça 
Os  successivos  críticos  reinarão  8 1  ò 

Reprimindo  a  desordem,  leys  impondo. 
Roma  e  scieucia  unidas  prosperarão, 
E  as  artes,  onde  as  águias  ja  fugiao  : 
Ambas  em  fim  dos  mesmos  enimigo» 


164 

From  tlie  same  foes  at  last  both  felt  their  doom,  685 

And  the  same  age  saw  Learning  fali  and  Rome. 

\Vith  Tyranny  then  Superstition  join'd, 

As  tbat  the  body,  this  enslav'd  the  mind; 

Much  vvas  believ'd,  but  little  understood, 

And  to  be  dull  was  constriTd  to  be  good:  G90 

A  second  deluge  Leaining  thus  o'er-ran, 

And  the  Monks  fhiish'd  what  the  Goths  began, 

At  length  Erasmus,  that  great  mjurd  name, 
(The  glory  of  the  prieslhood,  and  the  shame !) 
Stcmm'd  the  wild  torrent  of  a  barb'rous  age,        OQj 
And  drove  those  holy  V andais  off  the  stage. 

But  see !  each  Muse  in  Leo's  golden  days 
Starts  from  her  trance,  and  trims  her  \vither'd  bays; 
Rome's  ancient  Genius  o'er  its  ruins  spread, 
Shakes  off  the  dust,  and  rears  his  rev'rend  head.  700 


165 

Cederão  ao  rigor;  ambas  nadarão.  820 

A  hum  tempo  Roma  e  lettras  s'acabarao 

Superstição  unio  co'  a  tirania 

A  escravidão  do  animo,  e  dos  povos. 

Muito  se  creo,  mui  pouco  s'intendia, 

E  julgou-se  ser  bom  ignorar  tudo.  82-5 

Cahio  novo  diluvio  sobre  a  terra 

Dos  Godos  a  irrupção  rematao  frades. 

Erasmo  em  fim  taõ  censurado  e  grande 

Gloria  do  clero,  mas  taõ  bem  vergonha 

A'  torrente  sal  vagem  rezestihdo  S30 

De  huma  barbara  idade,  audaz  expulsa 

Esses  beatos  Vândalos,  da  scena. 

Mas  vede  como  cada  musa  surge 

Nos  dias  d'oiro  de  Leaò,  compondo 

Na  frente  augusta  os  loiros,  quaze  murchos  ! 

Dentre  as  ruinas  sai  táo  bem  o  génio 

(D'antiga  Roma)  o  musgo,  o  pó  sacode 

E  a  veneranda  face  a:>  gente  5  ni  «tra. 

A  sculptura  co'  as  artes  innuus,  toma, 


166 

Then  Sculpture  and  her  sister-arts  revive; 

Stcnes  leap'd  to  fcrm,  and  rocks  began  to  live; 

With  svveeter  notes  each  rising  temple  rung; 

A  Raphael  painted,  and  a  Vida  sung : 

Immortal  Vida!  on  whose  honour'd  brow  705 

The  poet's  bays  and  critic's  ivy  grow ! 

Cremona  now  shall  ever  boast  thy  name, 

And  next  in  place  to  Mantua,  next  in  fame! 

But  soon  by  impious  arms  from  Latium  chas'd, 
Their  ancient  bonnds  the  banish'd  Musespass'd:  710 
Thence  arts  o'er  all  the  northern  world  advance, 
But  critic-learning  fiourish'd  most  in  France: 
The  rules  a  nation  born  to  serve  obeys, 
And  Boileau  still  in  right  of  Horace  sways. 
But  \ve,  brave  Britons!   foreign  laws  despis'd,      715 
And  kept  unconquer'd  and  uncivilizM ; 
Fierce  for  the  liberties  of  wit,  and  bold, 
We  still  defy'd  tbe  Romans,  as  of  old. 


167 

As  pedras  forma  tomaõ;  rochas  vivem,  840 

Nos  templos  novos,  doces  cantos  soaõ. 

Hum  Rafael  desenha,  hum  Vida  canta 

Immortal  Vida!  em  cuja  hourada  testa 

O  poético  loiro  brota  e  cresce, 

As  eras  do  censor,  do  mestre  insigne.  645 

Teu  nome  aplaudirá  Ciemona  sempre 

Como  perto  de  Mantua,  e  perto  em  fama. 

Mas  cedo  pellas  ímpias  armas  cedo 

Expulsadas  do  Latium,  degradadas 

O  limite  primeiro  as  musas  passao.  850 

O  norte  frio  então  acolhe  as  artes ; 

Mas  a  critica  em  França  he  que  florece. 

As  regras,  a  nação  servil  submetem 

Co'  septro  de  vénuza  Boileau  reina. 

Vos  Bretões,  que  zombais  das  leys  estranhas      Sò5 
Nao  vos  vence  ninguém,  nem  civiliza 
Altivos,  por  pensar  com  liberdade 
Dais  a  Ruma  atrevido  dtzaílo, 
Insultais  mesmo  a  seria  anti^uidad»-; 


168 

Yet  some  there  were,  among  the  sounder  few 

Of  those  who  less  presum'd  and  better  knew,       720 

Who  durst  assert  the  juster  ancient  cause, 

And  here  restor'd  Wit's  fundamental  laws. 

Such  was  the  Muse  whose  rules  aud  practice  tell 

"  Nature's  chief  masterpiece  is  writing  well." 

Such  was  Roscommon,  not  more  learn'd  thau  good, 

VVith  manners  genVous  as  his  noble  blood;  726 

To  him  the  wit  of  Greece  and  Rome  was  known, 

And  evry  author's  merit  but  his  own. 

Such  late  was  Walsh — the  Muse's  judge  and  friend, 

Who  justly  knew  to  blame  or  to  commend;  730 

To  failings  mild,  but  zealous  for  desert, 

The  clearest  head,  and  the  sincerest  beart. 

This  humble  praise,  lamented  Shade!  receive; 

This  praise  at  Ieast  a  grateful  Muse  may  give: 

Tlie  Muge  vvhose  early  voice  you  taught  to  sing,  735 

Presci  ib'u  her  heights,  and  prun'd  her  teuder  wing, 


16'9 

Comtudo,  certos  ha,  poucos,  mas  justos  860 

Que  mais  sabem,  porem  menos  prezumem  : 

Que  pugnar  ousao  pello  jus  de  antigos 

E  restaurar  as  priscas  leys  do  engeuho. 
Tal  era  a  musa  cujo  exemplo  e  canto 
Este  axioma  docemente  exprime.  865 

"  Bem  compor  he  primor  da  natureza," 
Tal  Roscommon,  tao  justo  como  sábio, 
Era,  em  modo  tao  nobre,  como  em  sangue. 
Conhecia  de  Roma,  e  Grécia  os  génios, 
E  excepto  o  seu,  o  mérito  de  authores.  870 

Tal  foi  Walsh  juis  da  muza  e  amigo  ; 
Que  o  louvor  e  censura  exacto  dava 
Brando  nas  faltas,  mas  cioso  sempre 
Da  perfeição,  e  graça  dos  discursos, 
Claro  dVngeuho,  e  coração  sincero.  B75 

Sombra  chorada!  este  epicedio  aceita 
Que  ao  menos  «irata  a  musa  te  dedica: 
A  musa  cuja  fraca  voa 
Para  canlár  em  ton  mais  levantado, 

L 


170 

(Her  guide  now  lost)  no  more  attempts  to  rise, 
But  in  low  nuuibers  short  excursions  tries ; 
Content  if  hence  th'  unlearn'd  their  wants  may  vievv, 
The  learn'd  rtfiect  on  vvhat  before  they  knevv :      740 
Careless  of  censure,  nor  too  fond  of  tame; 
Still  pleas'd  to  praise,  yet  oot  afraid  to  blame; 
Averse  alike  to  flatter,  or  ofiPend ; 
.Not  free  from  faults,  nor  yet  too  vain  to  mend.    744 


THE  END. 


171 

Que  ajudas-te  a  subir,  e  a  que  aparaste 

Das  tenras  azas  as  inúteis  plumas. 

Sem  mestre  agora  ja  subir  uaõ  ouza 

Vai  terra  a  terra  os  graves  tons  soltando, 

Feliz  se  nelles  podem  ver  seus  erros 

Os  ignorantes;  e  s'encontraô  sábios  H85 

Reflectindo,  o  que  ja  sabiaò  d'antes. 

Sem  satyras  temer,  e  sem  dezejo 

Da  fama;  aprovação,  com  tudo  estimo: 

Pouco  receio  os  golpes  da  ceusura, 

Repugname  offcnder,  ou  dar  lizonja  ; 

Terei  faltas  talvez,  pouco  me  custa 

Submetelas  á  emenda,  quando  he  justa.  SlH 


F  l  X  l  S. 


T-  Harper,  Jun.  Printer,  Crane  Court,  Fleet  Streei,  London. 


ERRATA. 

Page      1,  verse       2,  Em  lugar  de  qiuzesse — quizesse 

5,  li,    cabesça — cabeça 

19,  156,     ptleu — Peleu 

39,  357,     Tendo-sse—  Teodo-se 

39,  ■■  -  '  56-i,     charos — caros 

41, 388, sempre — sempre  a 

47,  432,     muiton — muito 

47,  439, nr— -rir 

69,  555,     Aao — A  o 

63,  697, .  offrocem—  oftrecem 

67,  642,     sema — *em  o 

83,  ESSA  IO— ENSAIO 

91,  91,     ctó — céo 

93,  111, ctó— céo 

95,  130,     trur  a — traça 

97,  146,     ledeo — lede-o 

103,  114,    .  /oo— fogo 

111,  296,     ■  u  /iKM-a  hums 

153, 7()1,     ■  (Tquai — d'<jqui 

153,  7d7, asmo — asno 

159,  767,     Ama,  louvar — Ama  louvar, 

161,  799,     Ojucil— A  o  fácil 

167, 843,  ■   '  hourada — honrada 


- 


*